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Mauro Bolognini, adeus ao purgatório

Luiz Carlos Merten

24 de março de 2020 | 13h12

Pertenço a uma geração que, em Porto Alegre – os grandes críticos de minha geração, José Onofre, Jefferson Barros, Enéas de Souza -, não tinha muito apreço por Mauro Bolognini, nem Pier-Paolo Pasolini. Cito os dois porque Bolognini, que sempre carregou o estigma de ser um Luchino Visconti menor, fez filmes com roteiro de Pasolini que repercutiram muito, na época, o que foi o caso, especialmente, de O Belo Antônio, baseado no romance de Vitaliano Brancati, com Marcello Mastroianni como homem meridional – siciliano – que não consegue consumar o casamento com Claudia Cardinale. Na entrevista com Chiara Mastroianni sobre o Christophe Honoré que lhe valeu o prêmio de melhor atriz na mostra Um Certo Olhar, em Cannes, no ano passado – por Quarto 212 -, falamos justamente como seu pai desmontava a própria imagem de galã, de sedutor, fazendo filmes como o de Bolognini. Tenho de confessar que, contra tudo e todos, Bolognini sempre foi um dos meus guilty pleasures. Lembro-me da impressão que me provocou A Casa Intolerante/Arrangiatevi. O filme de 1959 estreou tardiamente no Brasil, pelo menos uns três ou quatro anos mais tarde, quando a parceria de Bolognini com Pasolini já estava no ar. A Casa Intolerante é comédia e tem como base um problema real da Itália dos anos 1950 – a crise de habitação. Totò busca casa e encontra uma esplêndida. Arejada, espaçosa, a troco de banana. O que ele não sabe é que a casa era um bordel, e eles foram fechados por uma nova lei. Totò tem uma filha linda, e logo todos os gaviões – marinheiros, coronéis, estudantes, etc – estão correndo atrás da moça, como a nova p…do pedaço. Nunca vou me esquecer da mãe de família – Laura Adani – enxotando os machos da porta, dizendo que aquilo agora era uma casa decente e dando uma banana – ‘Arranjem-se!’, Arrangiatevi. Aquilo, para mim, foi uma revelação. Que atriz, que interpretação – algum de vocês já tinha ouvido falar de Laura Adani? Em 1959, Bolognini já era um diretor de sucesso – suas comédias com Marisa Allasio foram um estouro. Com a força do seu prestígio comercial, ele conseguiu bancar Pasolini como roteirista de La Notte Brava, lançado no Brasil como A Longa Noite de Loucuras. O filme é sobre os ragazzi di vita e hoje parece perfeitamente natural que Bolognini buscasse Pasolini, mas na época os produtores não queriam saber dele. Era provocador, seu sucesso era de escândalo e, com exceção dos diálogos de A Noite de Cabíria – um Federico Fellini de 1957 -, não era considerado homem de cinema. A parceria prosseguiu em O Belo Antônio e Um Dia de Enlouquecer/La Giornata Balorda, pelo qual tenho um fraco. Jean Sorel faz desempregado que passa o dia procurando colocação. Termina fazendo sexo com uma burguesa, Lea Massari, que lhe dá o dinheiro de que ele precisa para armar sua barraca na feira. A figura pasoliniana do michê, comerciante do próprio corpo, encontrou em Bolognini o seu poeta. Muita gente acusava o cineasta de edulcorar os personagens de Pasolini, mas Bolognini, na verdade, estava sendo fiel ao projeto dele, que associa esteticismo e verismo. Isso se evidencia especialmente nos filmes de época – Caminho Amargo, Desejo Que Atormenta, e Bolognini tentou trazer Pasolini para o primeiro, adaptado de Vasco Pratolini, mas Pier-Paolo já estava engajado nos próprios filmes -, nos quais o detalhismo do diretor sempre foi definido como ‘subviscontiano’. Por que estou exumando Bolognini nesse post? Em Paris, na livraria Reflets Médicis, na Rue Victor Cousin, no começo de março, comprei exemplares antigos da Positif, e a edição de outubro do ano passado da revista dedica seu dossiê a ele. Análises dos filmes, excertos de entrevistas do diretor. Até o elogio de Luchino Visconti a um filme que nunca vi, Libera Amore Mio, de 1973, com a Cardinale. Naqueles poucos dias parisienses, estava empenhado em me enfurnar no cinema para ver filmes. Li o dossiê no avião, na volta, e descobri que Bolognini foi tema de uma grande retrospectiva na Cinemateca Francesa, o que levou Positif a perguntar-se – será chegado o tempo de retirá-lo do purgatório? Sempre vi Bolognini como um autor, e a preferência dele pelos temas da impotência do homem e a mitificação da mulher o aproximam, no meu imaginário, de Joseph L. Mankiewicz, um dos grandes (maiores) de Hollywood. Sobre Visconti – como Luchino, mas sem o seu berço aristocrático, Bolognini foi fundo na abordagem da decadência – da burguesia, da civilização. Por volta de 1970, em dois filmes sucessivos com Massimo Ranieri, Metello e Bubu de Montparnasse, ele filmou o impasse da classe operária. Foi rotulado de reacionário – havia uma idealização da esquerda -, mas logo Elio Petri seria aclamado com a sua classe operária que não foi ao paraíso. Bolognini ofereceu a Gina Lollobrigida seu talvez mais belo papel – nos anos 1960, com certeza, Aquele Maravilhoso Novembro – e nos 70 colheu êxitos consideráveis com A Grande Burguesia e A Herança Ferramonte. Nos 80, fez uma Dama das Camélias com Isabelle Huppert, mas nunca vi a sua Cartuxa de Parma (para TV). Escrevo o post e me lembro de cenas como a de Senilità/Desejo Que Atormenta. Tony Franciosa, que se degrada por amor a Claudia Cardinale, reprime o desejo da irmã, e Betsy Palmer enlouquece. De longe, o irmão a vê andando a esmo na rua, como quem caça homem. A imagem é suntuosa, em preto e branco brumoso. Possui algo de doentio, um virus (o desejo culpado? Bolognini, afinal, era gay) que consome a pobre humanidade e a condena à decadência. Justamente Senilità. Bolognini, que morreu em 2001 – nasceu em 1922 -, tinha consciência de ser odiado pela esquerda, que não o considerava suficientemente dialético, e pela direita, que não lhe perdoava a parceria com Pasolini (e os ataques ao fascismo). Cobravam-lhe – “Como ele ousa adaptar Italo Svevo?’ O estigma, de Porto Alegre à Itália, o perseguia. Para mim, é um grande autor (sim!) e merece revisão.

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