As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Maureen, Lina, os óculos brancos e a cabeleira ruiva

Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2015 | 10h24

Queria ter feito ontem à noite um programa duplo de clássicos restaurados, revendo Bom-Dia Tristeza, de Otto Preminger – e, na sequência, Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, na Mostra. Consegui ver só o segundo. Tinha minha capa do Caderno 2, a entrevista com Lina Wertmüller, que será homenageada em novembro, na cidade, com Bernardo Bertolucci e Marco Bellocchio, no 11.º Festival de Cinema Italiano. Os organizadores prometem trazer os três à cidade e o evento terá 16 títulos em competição, mais três fora de concurso e obras representativas escolhidas pelos próprios homenageados – menos Lina, sobre quem o festival vai exibir o documentário Dietro gli Occhiali Bianchi, de Valerio Ruiz. Lina e seus óculos de aros brancos. Lina e o seu gosto pelo grotesco. Em Pasqualino Sete Belezas, o herói, enviado para o campo de concentração, seduz a comandante, uma nazista imensa, e é soterrado sob uma montanha de carnes, enquanto o socialista convicto se mata, jogando-se num fosso cheio de m… Tinha também matérias da Mostra e a crítica de Sicario, o thriller de Dennis Villeneuve – ótimo -, que teve de ser substituída pelo necrológio de Maureen O’Hara. Maureen morreu em sua casa em Boise, Idaho, cercada pela família, aos 95 anos. Achei excessivo e até não coloquei em meu texto, mas li na internet que teria se despedido com música e a trilha de sua ‘passagem’ foi a de Depois do Vendaval/The Quiet Man, de John Ford, em que formou dupla – emblemática – com John Wayne. Maureen era irlandesa e começou no cinema na Inglaterra. Fez um Hitchcock – A Estalagem Maldita/Jamaica Inn, com Charles Laughton – e o ator, um grande astro em 1938/39, conseguiu que ela fosse sua Esmeralda, quando foi ser, em Hollywood, o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, que William Dieterle adaptou do romance de Victor Hugo. É curioso como o cinema resistiu em filmá-la em cores, embora a cabeleira ruiva tenha se transformado na marca de Maureen O’Hara como heroína indomável e voluntariosa. Os primeiros filmes foram todos em P&B, numa época em que o desenvolvimento da cor e da cenografia dominavam a produção corrente em Hollywood. A Maureen dessa fase pode ser (re)vista na Mostra em Como Era Verde Meu Vale, que integra a retrospectiva dos clássicos restaurados pela Film Foundation de Martin Scorsese. O filme é muito bonito e, entre os cinco Oscars de 1941, levou os de filme, diretor e fotografia, um trabalho maravilhoso de Arthur Miller, homônimo do dramaturgo. Maureen filmou de novo com Ford, mais uma vez em P&B – Rio Grande, lançado no Brasil como Rio Bravo, formando dupla com John Wayne -, e depois veio a cor. A Irlanda idílica de Depois do Vendaval, que venceu dois Oscars em 1952, melhor diretor (o quarto e último de Ford) e melhor fotografia. Sean Thornton/Wayne volta da ‘América’. Envolve-se com Mary Kate Danaher, casam-se, mas o irmão dela, o brutamontes Victor McLaglen, não quer pagar o dote e Mary Kate decide não consumar a união enquanto não receber seu dinheiro. Ocorre que Sean, que era pugilista, provocou uma morte acidental no ringue e, agora, traumatizado, não quer voltar a lutar. Mas a luta vem e, quando chega, é uma cena antológica, como o beijo roubado de Sean e Mary Kate, que inspirou até Steven Spielberg em E.T. Sempre achei que Depois do Vendaval era machista e nunca me preocupei com isso, porque o filme pertence à infância do cinema e à minha infância, quando esse tema não era o mais premente, mas o curioso, o que sempre me surpreendeu, é que até feministas de carteirinha sempre colocaram Depois do Vendaval, e Mary Kate, em seu panteão. Maureen O’Hara fez mais dois filmes com Ford, A Paixão de Uma Vida e Asas de Águia, os dois coloridos e só o segundo com o ‘Duke’. Ela filmou com Sam Peckinpah (O Homem Que Eu Devia Odiar), fez mais dois filmes com Wayne (Quando Um Homem É Homem e Jake Grandão) e, bem depois, uma comédia com John Candy (Mamãe não Quer Que Eu Case). Depois disso, deu adeus ao cinema e isolou-se. Era garoto, mas me lembro do escândalo quando ela fez O Suplício de Lady Godiva, em 1955. Estava com 35 anos, no auge, e supostamente estaria nua, coberta apenas pela cabeleira cor de fogo, como a mulher de nobre saxão forçada a cavalgar despida pela cidade. George Nader era o marido, Victor McLaglen dividia de novo a cena com ela e, numa ponta, aparecia o então muito jovem Clint Eastwood. E, não, apesar do tititi, Maureen não estava nua. Usava uma malha cor de carne. Era um tempo de muito pudor em Hollywood – claro que por trás das câmeras…. O próprio Ford declarou a Peter Bogdanovich que foi s sexualidade ‘saudável’ de Depois do Vendaval que lhe despertou o desejo de fazer o filme. Outros tempos…