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Materia obscura

Luiz Carlos Merten

16 Fevereiro 2013 | 11h20

BERLIM – Eh curioso, mas o festival jas estah bem desacelerado. A sala de imprensa estah vazia. Normalmente, neste horario, todo dia eh uma loucura. Muita gente, nenhum computador disponivel. Estava aqui redigindo minha entrevista com Catherine Deneuve – mais uma! Por conbta disso, perdi A Marca da Maldade, de Orson Welles, em Berlinale Classics, mas, de qualquer maneira, nao conseguiria ver o filme inteiro. Daqui a pouco, 3 da tarde daqui, meio dia no Brasil, tenho as entrevistas de Croods, com a dupla de diretores e Nicolas Cage. Mas gostaria de ter visto,no esplendor de uma versao restaurada, pelo menos o plano-sequencia de abertura de The Touch of Evil, que eh um dos mais gloriosos do cinema. Com o campo total, a profundidade de campo, que utiliyou em Cidadao Kane, Welles reformulou o conceito de montagem no cinema, permitindo que o proprio espectador faca seu corte ao olhar a montagem como um todo. O plano sequencia desse filme, o one lng shot, foi ao mesmo uma evolucao e uma revolucao do seu estilo. Aas vezes, tenho vontade de escrever um livro sobre isso. Quem sabe…? Hoje pela manhah, jah entrevistei atletas handicapeds que vao aas Para-Olimpiadas no Brasil, Estao aqui por um documentario chamado Gold, Ouro, como a ficcao do alemao Thomas Arslan. Eh interessante,mas conversamos sobre o fato de que, apesar das diferencas entre os dois filmes, em ambos o ouro eh essa quimera que os imigrantes de Arslan procuram na tentativa de mudar de vida e os atletas buscam como uma forma de superacao. Participar da disputa eh uma coisa, ver-se na tela eh outra, mais dolorosa. Foi uma conversa bem mais estimulante do que imaginava, e ainda houve outro documentario, Materia Oscura, de uma dupla de italianos, Massimo Danolfi e Martina Paenti,  no Forum. O filme eh sobre uma ilha na qual, desde 1956, realizam-se experimentos militares com novas armas, no sul da Italia. A natureza agredida, contaminada. Acompanhamos o esforco de um bezerro que nao consegue ficar de peh, e que termina morrendo, apesar dos esforcos do fazendeiro para alimenta-lo. Nao me perguntem exatamente como nem por queh, mas o filme de Danolfi e Martina me lembrou Le Quattro Volte, de Michelangelo Frammartino, que eh melhor, mas gostei de ver Materia Oscura. Trabalhando com dados concretos, a dupla de diretores fez um filme intencionalmente nebuloso, como linguagem. Seria um documentario talvez banal, se fosse mais didatico, informativo. Desse jeito, eh mais ousado, artistico ateh. Mas a questao, beyond (alem) da tarde, eh politica e social. A barbarie humana. E, quando a natureza revida, ainda reclamamos.