As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mas que salada indigesta (as premiações de Gramado)!

Luiz Carlos Merten

17 de agosto de 2015 | 22h16

Cheguei ontem à tarde a São Paulo e já engrenei no trabalho. Sem laptop, que tinha ido para conserto, não consegui postar para tentar dar conta de alguns temas ainda ligados ao Festival de Gramado, que terminou passado da meia-noite de sábado, portanto, na madrugada de domingo. Quem leu meu texto desta segunda-feira no Estado sabe que não houve um só júri, entre três, que tenha feito o que para mim seria a coisa certa. Mariana Ximenes (Um Homem Só) ter tirado o prêmio de interpretação de Cíntia Rosa (O Fim e os Meios) e a excepcional fotografia de Ponto Zero ter sido esquecida pelo júri brasileiro, o excepcional ator (Humberto Arango) de Ella também ter sido esquecido pelo júri latino – segundo me contaram porque fulaninha se irritou com o esteticismo do longa da colombiana Libia Sánchez Díaz – e Dá Licença de Contar não ter levado nada do júri de curtas, tudo isso foi demais para mim. Ao contrário do que pode parecer, não é simples questão de gosto. Digamos que,. em alguns casos, possa ter havido impasse devido a conceitos e posições divergentes, mas creio que faltou bom-senso. E grandeza. Alguém tem de ser minimamente responsável e ponderar contra maluquices como atribuir o Kikito de melhor longa estrangeiro a La Salada. Li agora no catálogo do festival, ao buscar o nome do diretor argentino Juan Martin Hsu, que o filme dele está indo para Toronto. Vou torcer para que ganhe, e não porque isso seja relevante, mas aí essa gente que votou no La Salada pelo menos não estará sozinha no equívoco. A cerimônia de premiação, segundo ouço, teve duas manifestações políticas. Luiz Carlos Barreto defendeu o estado de direito, contra o golpe de direita – mas Barretão, por lúcido que seja, produziu o ‘filme do Lula’, que, aliás, era bom, e a polarização do jogo político, por conta disso, o torna pouco crível para a massa de manobra. Luiz Fernando Emediato, coprodutor de O Outro Lado do Paraíso e autor do livro em que se baseia o filme de André Ristum, também defendeu o estado 0 de direito, mas aproveitou para criticar a presidente Dilma como má gestora, o que, no clima de polarização já assinalado, lhe garantiu se indispor lá e cá. Posso não ter amado Ponto Zero – aquela mãe me derrubou, insisto -, mas agora virou uma coisa conceitual e vou defender até a morte que o filme tivesse ganhado Gramado. Um filme de estreante, do diretor cinquentão aos técnicos jovens. E daquele mato vai, sim, sair coelho. Não havia nenhum outro filme daquela ambição na competição brasileira. Talvez, na latina, o colombiano (Ella) e o mexicano (En la Estancia), mas não eram tão bons como o cubano (Venecia) e o equatoriano (Ochentaisiete). Tudo o que quero é que a Mares, a Pandora ou a Vitrine, qualquer distribuidora indie, compre o longa de Anahi Hoeneisen e Daniel Andrade e o lance logo, para que eu possa colocar Ochentaisiete com Casadentro, da peruana Joana Lombardi, entre meus melhores filmes do ano.