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Mas o que é isso, companheiros?

Luiz Carlos Merten

28 de novembro de 2016 | 10h27

Já estou de volta em São Paulo, mas o tema continua sendo a Semana dos Realizadores. Passei quatro dias no Rio, na Semana, e teria sido o melhor lugar paras me esconder dos coleguinhas que encontro no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. A crítica defende tanto o cinema autoral e independente… Onde estava? Na verdade, e por que tenha gostado de outras coisas, meu maior interesse estava num programa de ontem do CachoeiraDoc na Semana, a exibição de Kbela, de Yasmin Thayná, seguida de Amor Maldito, de Adélia Sampaio, primeira cineasta negra do Brasil, e o todo complementado por um debate, Por Um Cinema Negro no Feminino. Não esperava o que ocorreu. Quem fazia a mediação era Janaína de Oliveira, historiadora e pesquisadora (PhD) do cinema negro. Cercado por Yasmin e Adélia, Janaína disse que ia ler uma carta de protesto, e a gente ia entender tudo. Jesus! Adélia foi a Porto Alegre no dia 20, da Consciência Negra, para receber uma homenagem na Cinemateca Capitólio. Até aí, tudo bem. Na volta, no aeroporto, e porque tem sei lá quantos pinos na coluna, ela avisou ao serviço de segurança. Ordenaram que passasse. O alarme disparou. Adélia, uma senhora de 70 e tantos anos, foi conduzida como potencial terrorista para uma sala reservada e forçada a se despir. Uma agente obrigou-a a tirar a calcinha e a fazer o teste do agachamento. A carta denuncia o racismo, e com razão. Quero ver se o tratamento teria sido o mesmo, se Adélia fosse branca. Estou lendo o novo Luiz Antônio Assis Brasil, O Inverno e Depois. Assis Brasil foi secretário de Cultura no governo de Tarso Genro. Depois, o antipetismo conseguiu eleger o gaúcho bonachão, e o governo do Rio Grande tem sido esse desastre com o PMDB. Me pergunto se adiantaria um protesto público de Assis Brasil nesse caso. Nem vou pesquisar para ver a repercussão que o caso teve em Zero Hora. Estava em Porto, acho que foi depois de Gramado. Todo dia violência, omissão da polícia, as manchetes. E aí, num assalto, mataram acho que uma dentista, coisa brutal. Todos os casos anteriores não contaram nada. Foi preciso esse para que a sociedade se mobilizasse. Branca, médica, mãe, classe média, presumo que alta. Finalmente alguém com quem as pessoas de bem podiam se identificar. Vivemos no Brasil dos dois pesos e duas medidas. Em Martírio, de Vincent Carelli, a bruxa ruralista no Congresso promete a seus pares que ‘nós (eles) vamos demarcar’ o território dos índios. O avanço legalizado. Índio, segundo ela, não ‘produz’. Não sou muito chegado a pesquisas na rede, mas entrei no site da pessoa, só para ver. Um monte de pensamentos nobres, positivos, parecia pastora. Mensagens diárias de paz, amor – mas só para a ‘nossa’ (deles) turma. Para os restantes, e os índios, lembrem-se do melhor Sérgio Bianchi – Mato Eles? Estava ontem, no Rio, na sucursal do Estado, na hora da entrevista do presidente. Michel Temer entre Renan Calheiros e Rodrigo Maia. Executivo e Legislativo fizeram um pacto de honradez e transparência. O trio cara de pau. Depois, na rua, vi a chamada de capa da ‘revista’. O cerco tá fechando e chegando a Michel. Geddel Vieira Lima já foi, tarde, e o restante do núcleo duro do governo está com o c… na mão, prestes a ir na nova leva de delações. Michel tenta se precaver. Promete levantar a economia no ano que vem. Posa de estadista. Diz que é um homem que pesa suas palavras. Enquadrou, como se fosse um professor, a repórter que fazia a pergunta básica – mas por que um presidente teria de fazer a mediação num conflito entre dois ministros, Marcelo Calero e Geddel, se o caso era ‘privado’? Cada vez mais a realidade dá razão a Kleber Mendonça Filho, e a Clara, admirável Sonia Braga em Aquarius. No fundo, o mesmo conflito. Defender o velho prédio contra a incorporadora. Só a comissão que indicou o filme brasileiro para o Oscar não percebeu isso. Quer dizer, percebeu muito bem e fez a escolha exigida pelo momento, para legitimar essa farsa horrenda.