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Marina, Rocco Granata e o aporte dos Dardenne

Luiz Carlos Merten

21 de abril de 2014 | 12h40

Meu amigo Dib e Jussara Guedes foram ver Marina. Adoraram o filme de Stjin Mannix, embora Dib tenha feito a ressalva de que o final era muito apelativo. Eu fui ver ontem e me surpreendi de cara com uma informação que ninguém havia me dado – nem Ademar Oliveira, que distribui Marina nem Margarida Oliveira, que faz a assessoria. A produção é dos irmãos Dardenne, Luc e Jean-Pierre. Seria a velha história do garoto pobre que tenta realizar seu sonho, no caso, Rocco Granata, que sonha ser o sucessor de Dean Martin. Ele vive na Bélgica, filho de imigrantes italianos. Apaixona-se por uma garota local, cujo pai, dono de uma mercearia, desconfia dos ‘estrangeiros’. Essa história se articula com outra mais densa – e complicada. Após a derrota na 2.ª. Guerra, a Itália conheceu um período de desemprego e miséria, só se reerguendo graças ao Plano Marshall, quando os EUA despejaram dinheiro na Itália, na Espanha e na Grécia, com medo de que esses países se tornassem comunistas. O pai é contratado para ser minerador. O trabalho é duro e ele contrai uma doença dos pulmões. O filho quer ser artista, mas a legislação o impede. Como filho de imigrante, e minerador, Rocco só tem autorização para ser minerador (também). Leopoldo, rei da Bélgica, era considerado uma humanista. Se o foi, foi para seus pares. Assim como a legislação discrimina os imigrantes, a Bélgica instituiu leis bárbaras em seu reinado colonialista no Congo. A prática de decepar as mãos dos rebeldes começou com os belgas. Terminou adotada nas guerras tribais. Esse aspecto terminou me parecendo o mais interessante de Marina, porque o belga riquinho, preterido pela garota amada de Rocco, sente-se liberado para fazer o que faz. É um mundo cruel e cheio de contradições – a mãe, Donatella Finocchiaro, lava as cuecas dos outros mineiros para ajudar no sustento da família. O pai, Luigi Lo Cascio, é um meridionale (da Calábria) machista. Desconfia da mulher, pede ao filho que a vigie. Tenta o tempo todo impedir que o garoto siga seu sonho, mas no final… É curioso que, sendo um outsider na sociedade belga, ele retribua recusando-se a falar a língua. Não creio que Marina seja um bom filme, como é, por exemplo, O Filho de Deus. Mas gostei de ver. Há um viés quase documentário na descrição das dificuldades de integração e de vida dos estrangeiros. (É o lado Dardenne?) A vila em que a família Granata vai morar é uma favela sórdida, e mesmo ali as regras estão sempre oprimindo os ‘indesejáveis’. O sucesso vem por meio de uma visceral experiência individual – com o esforço e talento de Rocco. O trabalho artesanal, de formiguinha, para tornar o disco conhecido, não difere muito da via crúcis de Francisco, para tornar seus dois filhos conhecidos no belo filme de Brenno Silveira. Matteo Simone, que faz Rocco na fase ‘músico’, é bom. Embora, no Espaço Frei Caneca, os filmes mais requisitados fossem os blockbuster – Capitão América 2, Noé, que continua não negando fogo -, havia mais de meia sala vendo Marina. Boa parte desse público ficou comigo até o fim dos créditos (e teve até gente que saiu cantarolando), mas não aplaudiu, como vem ocorrendo no fim das sessões de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, também no Espaço Frei Caneca. Permitam-me embolar esse final de post. Falei há pouco de O Filho de Deus.  Tentei, com toda boa vontade do mundo, gostar de Noé, mesmo não sendo admirador de Darren Aronofsky. Chego a achar bonita a cena dos transformers, os anjos de pedra, virando luz. Noé virou um fenômeno. O público adora. Não tem nada a ver, mas só assumi, para mim mesmo, que Noé é ruim depois de ver Filho de Deus, que é tão bom.

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