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Marília foi grande, mas poderia ter sido maior

Luiz Carlos Merten

06 de dezembro de 2015 | 12h49

Tive ontem uma manhã agitada, vivendo a ‘experiência’ da Comic.Com. Fui entrevistar Anthony Russo, diretor de Capitão América, e foi uma loucura. Muita-muita gente, e enquanto esperava, andando em meio àqueles estandes, e vendo aqueles álbuns, revistas, aquela gente fantasiada, eu pensava comigo sobre o vazio interior que nos leva a idolatrar super-heróis, vejam que me incluo no meio. Soube da morte de Marília Pêra, mas emendei o esforço de sair de lá – sem telefone para me comunicar com o jornal – com almoço e depois queria ver À Beira-Mar. Foi outro sufoco. Fiquei preso no trânsito – devia estar havendo alguma manifestação na área da Paulista -, terminei tendo de ver o filme numa sessão mais tardia no Shopping Bourbon. Na saída, muita gente fazendo compras – gente, gente, sempre gente. Filas enormes para táxi e eu havia marcado de ver com meu amigo Dib O Topo da Montanha, no Teatro da FAAP. Cheguei em cima da hora e também foi outra epopeia achar um orelhão que funcionasse ao redor da FAAP. Terminei subindo até quase a Praça Buenos Aires, para tentar lembrá-lo do compromisso. O que quero dizer é que a morte de Marília só voltou quando Lázaro, no final do espetáculo, lhe dedicou a apresentação de ontem, e o público veio abaixo. Imagino que Marília tenha recebido a mesma homenagem de outros colegas atores, em teatros espalhados pelo Brasil e que a reação tenha sido aquela – calorosa. Nunca entrevistei Marília Pêra, esses anos todos. Em Gramado, não fui à sua coletiva, quando recebeu, em agosto, o Prêmio Oscarito, mas estava lá no Palácio dos Festivais, na hora. Achei-a velhinha, fraquinha. E, com todo respeito, achei-a a Marília de sempre, um pouco over demais para o meu gosto. Sempre achei que Marília, mesmo sendo uma artista excepcional, exigia diretores com mão de ferro para fazer aflorar as personagens, porque, na maior parte do tempo, ela era a diva e, para a massa que a idolatrava, era suficiente. Marília Pêra ganhou duas vezes o prêmio de melhor coadjuvante em Gramado, foi melhor atriz nos EUA por Pixote, de Hector Babenco, fez todos aqueles filmes, novelas e peças, mas raras vezes, eu, pelo menos, consegui vê-la como atriz. No Babenco, com certeza. No Cacá, a Perpétua de Tieta, OK. Mas no Saraceni, O Viajante, bem, tem gente que defende. Vi-a muitas vezes como personagem de si mesma, como uma ‘persona’. Não duvido nem questiono que tenha sido grande, mas quero dizer que, sem a unanimidade – essa coisa de entrar para arrasar, sabendo que tecla tocar para levantar o público -, teria sido, talvez, maior ainda. Dib a adorava. Divertia-se muito com sua bêbada, consumidora de gim, de Pé na Cova. Ontem, no jantar, depois da peça, ele perguntava pelo futuro do seriado, sem ela.