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Marieta

Luiz Carlos Merten

29 de abril de 2013 | 09h48

RECIFE – Cá estou neste Recife chuvoso, e cada vez que me molho, e tenho me molhado bastante, me pergunto se as águas de abril chegaram semiárido e ao sertão, para acabar com a seca terrível. Morreu Paulo Vanzolin. Entrevistei-o, em casa, por conta do documentário de Ricardo Dias. Amava o compositor de Ronda, que Márcia cantava tão bem, de Volta por Cima e me encantou sua figura calorosa. E era homem de grande cultura. Deu-me um livro de poemas, que espero ter guardado com a deferência que merece. O festival segue irregular, mas sempre interessante, pelas discussões e reencontros que enseja. Havia visitado o set de Vendo ou Alugo e o filme de Betse de Paula, produzido por Marisa Leão, foi exibido no sábado à noite, após a homenagem a Marieta Severo. Grande Marieta! A Dona Nenê de A Grande Família virou não apenas uma figura amada pelo público – a mãe de família típica, a dona de casa -, como também é uma das maiores atrizes do País. Durante a coletiva de Marieta, sentado ao lado de Sílvia Buarque, iniciei uma viagem. E me perguntei qual o foi o turning point da vida e carreira de Marieta? Não sei se ela concordaria comigo, mas existem pessoas que levam vidas públicas e sobre as quais terminamos por estabelecer juízos que podem, ou não, ser verdadeiros. Minha primeira imagem de Marieta é sempre a vilã, a Rata, que ela fazia na novela O Sheik de Agadir, ou será que me engano? Depois, veio Todas as Mulheres do Mundo, em que Domingos de Oliveira justamente parodiava a novela, naquela cena, e o problema de Todas as Mulheres é que lá era difícil ter olhos para alguém mais que não Leila ‘para sempre’ Diniz. Marieta viveu muito tempo à sombra de Chico. O fim do casamento fez surgir uma nova mulher, e uma nova atriz. Tenho acompanhado Marieta em todas as mídias – na TV, no teatro, no cinema. Meu amigo Dib Carneiro estreou sua peça Salmo 91, brilhantemente dirigida por Gabriel Villela, no teatro que Andrea Beltrão e ela fundaram no Rio. Marieta virou uma espécie de símbolo da resistência do cinema brasileiro, não sei se os outros a veem assim, porque foi a Carlota Joaquina de Carla Camurati, que deu início à Retomada, há quase 20 anos. Estas duas décadas têm sido prodigiosas para Marieta. Emocionei-me ao vê-la falar de seu amor pelo cinema, e pelo cinema brasileiro, que começou com as chanchadas da Atlântida e prosseguiu com a (r)evolução do Cinema Novo. Numa coisa somos almas gêmeas – Marieta revelou que sempre adorou Violeta Ferraz. O cinema brasileiro não existiria no meu imaginário sem o vozeirão de Violeta proclamando, como Perpétua, que o petróleo é nosso no finalzinho da chanchada de Watson Macedo. Aquilo, sim, é clássico.

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