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Maria Stuart e o jogo da Justiça, a serviço de um projeto de poder

Luiz Carlos Merten

18 de janeiro de 2019 | 10h54

De volta! Cheguei em casa de madrugada, passado da 1, e isso que o táxi veio chispando, demorei pouco mais de meia-hora desde o aeroporto (Garulhos) até em casa (Pinheiros). Tanta coisa para falar. Sobre o Chile, Santiago a Mil, Tierra de Jinetes, Vamonos con Pancho Villa, Sebastián Lelio, etc. Tudo pode esperar. Leio na capa do Estado que o filho do presidente trava no STF a investigação sobre seu ex-assessor. E, em Carta Capital, que o ministro Moro, cobrado num supermercado de Brasília por sua parcialidade, chamou de mal-educado e desagradável o jovem que lhe cobrava a vista grossa do governo no caso. O que me leva à Maria Stuart de Stefan Zweig. Creio que conheço mais o escritor de minhas conversas com Sylvio Back e dos filmes nele baseados que de sua literatura, propriamente dita. Sou o maluco que prefere A Carta de uma Desconhecida a Lola Montès na obra de Max Ophuls e, lendo o Zweig, dei-me conta do refinamento de sua análise da psicologia feminina, que tanto me encanta na Carta. Joan Fontaine é um modelo de precisão no Ophuls. Todo o turbilhão que consome a alma daquela mulher apaixonada. Lola, em contrapartida, é o circo, o espetáculo, e tudo o que só a falsidade pode revelar e,às vezes, revela, de verdadeiro. Mary Stuart! Em Londres, fui a Westminster e confesso que, conhecendo a rixa entre Maria e Elizabeth, as rainhas da Escócia e da Inglaterra, fiquei surpreso ao descobrir que estão enterradas, lado a lado, na cripta dos reis ingleses. A iniciativa foi de Jaime I, o (medíocre) filho de Maria, a quem ela, com seu sacrifício, assegurou o trono, na sucessão de Elizabeth. Vi o filme de John Ford, baseado na peça de Schiller, vi o de Charles Jarrott, Maria Stuart – Rainha da Escócia, em que Vanessa Redgrave e Glenda Jackson duelam como as duas devem ter duelado na realidade, uma infernizando a vida da outra, sem jamais se verem, frente a frente. Amparado em documentos, Zweig ficcionaliza o que pode, ou deve, ter-se passado na cabeça de ambas, em sua disputa pelo poder. O conflito entre as igrejas católica e anglicana, a farsa do julgamento de Maria e de sua condenação sem provas, ou com provas forjadas pelo inquisidor, para servir à sua rainha, Elizabeth. Pergunto-me se a publicação do romance ensaístico e histórico de Zweig pela José Olimpio, nesse momento, não terá a ver com a similaridade do caso com outro recente julgamento cujo desenlace influiu decisivamente sobre a evolução da vida política brasileira? À parte essa viagem (minha), Maria Stuart, o livro, me pareceu muito forte, muito vivo, o oposto do que Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, chama de tédio distinto do filme de Charles Jarrott. Maria, rainha ungida, foi executada. Historicamente, o fato estabeleceu um limite ao poder divino dos reis. E ela, mulher apaixonada, transformou o espetáculo de sua morte num ato de fé, e de afirmação de sua igreja contra a reforma. Mais do que ler com prazer devorei Maria Stuart. E, depois, tentei desacelerar, para prolongar o prazer. Recomendo, e a consequência mais direta é que adoraria rever o clássico de Ford com Katharine Hepburn. O filme de 1936 – Mary of Scotland – é uma obra de prestígio do mestre, como O Delator, seu primeiro Oscar, no ano anterior. Vi-o só uma vez, há décadas, mas guardo a lembrança de que as dimensões do cenário – a mudança de planos da rainha, sua distância dos juízes, o plano superior em que eles se colocam, etc -, tudo prenuncia Orson Welles (e Cidadão Kane), no palácio de Xanadu.

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