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Marcos Bernstein e a estética ‘humberto-mauriana’ de Orgulho e Paixão

Luiz Carlos Merten

24 Setembro 2018 | 18h08

Termina hoje, daqui a pouco, Orgulho e Paixão, a novela de Marcos Bernstein livremente adaptada de Jane Austen. Fui fazer uma pesquisa para conferir nomes e encontrei, num site qualquer, que coadjuvantes e vilãs salvam novela de casal sem graça. Ai, meu Jesus! Sendo a história de uma casamenteira – a personagem de Elisabeta, Nathalia Dill -, a novela não se limita a uniões tradicionais, heteros. Marcos fez história na televisão brasileira, e de uma forma muito tranquila. Anos atrás, houve aquele imbróglio do Félix – beija/não beija – na novela das 9. O militar e seu namorado na das 6, Otávio e Luccino – Pedro Henrique Müller é sobrinho de Anna Luiza Müller -, não só beijam como amassam e discutem o que seria/será um mundo mais tolerante com pares homossexuais. Marcos começou a me conquistar quando ainda via a novela anterior, Deus Salve o Rei. Enquanto esperava, via um pouco de Orgulho e Paixão. A garota grávida, irmã de Nathalia, que buscava um marido para assumir seu filho. O soldado gago que a amava. Cada vez que ele tentava se declarar, e assumir o bebê, a gagueira provocava exasperação na almejada noiva. E então ele cantou! Tive uma epifania vendo aquilo – todo o capítulo foi cantado, e encantado. E aí veio o outro imbróglio. A garota, Mariana/Chandelly Braz, que se vestia como homem, ‘Mário’, e a perturbação que causava no militar Malvino Salvador. (Aliás, nada como haver integrado o elenco de Gabriel Villela, em O Boca de Ouro – Malvino teve um upgrade e tanto como ator. Se já era bom, está ótimo.) No limite, Brandão e Mariana/Mário eram um par heterossexual, mas serviram como preparativo para que nós, o público, nos preparássemos para o par gay. E novela tem/teve tudo – organização da classe operária, complexo de vira-lata e alinhamento da elite com o capital estrangeiro – ‘Lady’ Margareth -, desenvolvimento da indústria nacional (cafeeira), integração social do negro, da mulher, adoção etc. Todo mundo fala da forma como João Emanuel Carneiro aborda o Brasil na atual novela das 9, mas Marcos Bernstein, que escreveu com ele o roteiro de Central do Brasil, de Walter Salles, talvez esteja sendo muito mais rico e complexo, e de forma infinitamente mais leve, às 6. Justamente a leveza talvez desconcerte a crítica, porque não percebo muito zunzunzum midiático sobre os grandes temas abordados em Orgulho e Paixão, exceto o beijo gay, mas aí, me contaram, a repercussão foi nas redes sociais. E isso que ainda não falei do regalo que tem sido acompanhar a dupla cômica formada por Alessandra Negrini e Grace Giannoukas. Nem da extraordinária beleza madura – e serena – que adquiriu a filha de Regina Duarte, Gabriela. Confesso que tenho imenso carinho por Marcos Bernstein. Mesmo não sendo um grande filme, Do Outro Lado da Rua possui sólidas qualidades. E a sua versão de Meu Pé De Laranja Lima é a base dessa estética interiorana – ‘humerto-mauriana’ – que ele desenvolveu em Orgulho e Paixão, com a cumplicidade de seus diretores, Alexandre Kemplerer, João Paulo Jabur, Bia Coelho e Hugo de Souza, direção geral de Fred Mayrink. A novela termina hoje numa nota de ação – conseguirão os heróis impedir que o vagão desgovernado cause estragos (mortes?) na estação de trens? Daqui a pouco…