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Marcelo Yuka, um resgate tardio

Luiz Carlos Merten

21 de janeiro de 2019 | 16h29

No sábado, a pauteira do Caderno 2, Eliana Souza, me localizou em casa, pela manhã, e pediu se eu podia produzir um texto sobre o documentário de Daniela Broitman sobre Marcelo Yuka, que havia morrido. Escrevi o texto e enviei, mas na pressa digitei errado e o e-mail perdeu-se. O texto não saiu, no impresso nem no online. Resolvi resgatá-lo tardiamente no blog, por Marcelo e pela Daniela. Aqui vai.

Em seu admirável O Estrangeiro, Albert Camus resume a tragédia de Mersault na narração do próprio personagem, que mata o árabe com um tiro e depois desfere outros quatro no cadáver. Quatro batidas na porta da eternidade. Para Maercelo Yuka, foram nove – nove tiros e nove batidas, quando ele ficou no fogo cruzado da bandidagem, no bairro da Tijuca, no Rio, em 2000. Mais de dez anos depois – em 2011 – a jornalista e cineasta Daniela Broitman lançou seu documentário Marcelo Yuka no Caminho das Setas.
Yuka fala para a câmera de sua tragédia. Na época, me deu entrevista no Hotel Marabá, no Centro de São Paulo, ao lado do cinema. Marcelo era um sobrevivente. Um pouco amargurado, talvez, irônico, mas se houve um homem que nunca quis que tivessem peninha dele, por ter ficado paralítico, foi aquele cara. Ex-integrante do Rappa, Yuka saiu da banda, construiu uma trajetória solo. E ele não precisa falar mal dos ex-colegas no documentário, porque a fala deles deixa implícito que o trocaram pelo deus-mercado. O que não significa que o filme o isente de responsabilidades. Todo mundo sempre tem a sua versão dos fatos. No filme, ele deixa claro que passou por uma destruição física enorme, e não apenas. Como diz – ‘Nove tiros é tiro pra caralho.’ Mais até que as sequelas físicas, ficaram as da alma.
Na dor, Yuka aprendeu, e muito. Ficou mais sensível como artista. O filme levou-o a cavoucar nas próprias feridas. Houve momentos em que ele quis desistir, parar a filmagem, mas não dava. Estava preso a contrato. Foi duro até com a diretora. Disse que, por mais que Daniela afirmasse se preocupar com ele, estava mais preocupada com seu filme. Poucos documentários são tão críticos e desmistificadores com o personagem que elegem, não necessariamente para celebrá-los, mas porque são vidas sobre as quais vale refletir. A de Marecelo Yuka valia. Nesse sentido, Caminho das Setas é uma exceção nos documentários sobre artistas. Muito bom.