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Maratona Velozes e Furiosos (meu domingo espetacular)

Luiz Carlos Merten

23 de março de 2020 | 11h52

Saí agora para tomar café na lanchonete em frente à minha casa. É só atravessar a rua e já estou dentro. Desde sábado não saía de casa. É uma mudança e tanto de comportamento, para quem foi sempre rueiro. Tenho trabalhado de casa, lido, visto TV. Ontem, assisti no Globo Esporte a uma reportagem sobre um sujeito que explorava aspirantes a jogadores de futebol, sugando de garotos pobres o dinheiro que a família e eles não tinham. Essas histórias me deprimem – a facilidade com que algumas pessoas enganam e outras se deixam enganar. Acreditam porque querem crer. EU sou assim, agora me policio. Leio que psicólogos estão dando assistência à distância, porque o isolamento social desperta nas pessoas, principalmente as mais velhas, o medo da morte. Eu confesso que, fora das redes, estou bem isolado. Ando falando com pouquíssima gente (Lúcia, Dóris, Carlos, meu editor, algum (ou alguma) assessor(a) de imprensa que me propõe pauta). Filmes e livros têm sido meus companheiros. Enquanto houver delivery por aqui, tudo bem. Hoje, a minha dúvida é se faço a vacina contra gripe. Nunca fiz antes Mas, enfim, são novos tempos. Ontem, zapeando depois do Globo Esporte, caí no meio de uma corrida de carros. Velozes e Furiosos. Desafio em Tóquio. O Telecine Pipoca apresentou uma maratona que culminou com o spinoff, Hobbs & Shaw. Revi o 4, o 5, o 6. Paul Walker é de 12 de setembro, como eu. Morreu em 2013 e, desde então, todo aniversário minha colega Regina me atormenta – ‘Tadinho do Paul, foi-se, e eu (Merten) vou ficando’. Talvez seja um velho bobo, mas gosto muito dos conceitos de família, amizade, lealdade que estão na essência da série. Teríamos agora em abril um novo Fast and Furious, que agora está indo não sei para quando. Aliás, é um problema e tanto. No segundo semestre, quando se espera que todo esse horror tenha passado, haverá um número grande de blockbusters prontos para ser lançados. Como nosso mercado é formatado para eles, terão preferência, com certeza. Brigarão entre si, tudo bem, mas e os filmes pequenos, os de ‘arte’? Fim de Festa, para o seu tamanho, estava indo bem. Voltará, quando o mercado recomeçar a funcionar? Sete Anos em Maio, de Affonso Uchôa, entraria por esses dias num programa especial com outro média, o Vaga Carne. O que será desses filmes, e de outros considerados pequenos, mas importantes? O que será do cinema brasileiro como um todo, como atividade econômica? Vejo que a indústria da música está buscando alternativas, shows online. Imagino que isso funcione para nomões. Quanto o público não pagaria para ver em casa o novo Velozes e Furiosos? Eu pagaria, mas quantos fariam isso pelo Sete Anos em Maio? Volto à maratona de ontem. Sempre soubemos que havia um planejamento básico da série Star Wars e que George Lucas, desde o princípio, concebera três trilogias, começando pela intermediária, a segunda. Nas vezes em que tive oportunidade de entrevistas Vin Diesel, Justin Lin, foi burrada, admito, mas nunca perguntei pelo planejamento da série toda, talvez porque nunca tivesse visto, como neste domingo, os filmes em sequência, com os personagens que entram e saem. Michelle Rodriguez/Letty morre aqui e reaparece lá. Gal Gadot/Gisele morre e não aparece. Owen Shaw/Luke Evans, o brutal vilão de Furious 6, anuncia vagamente que tem um irmão. Em que momento surgiu a ideia do outro Shaw, Jason Statham, como antagonista de Luke Hobbs/Dwayne Johnson e, depois, seu aliado no spinoff? A série toda é muito bem amarrada e, ao vê-la em sequência, fortaleceu-se uma ideia que já tinha. Justin Lin é um puta diretor de ação, e não apenas. Ele evoluiu muito desde Desafio em Tóquio, em que já havia subtramas relativas à família e à paternidade. Elas foram se fortalecendo em seu cinema até chegar à cena de Fast 5, Operação Rio, em que Toretto e O’Connor, Vin Diesel e Paul Walker, falam sobre a próxima paternidade do segundo. Toretto evoca o pai, que foi sempre muito presente – a missa seguida de churrasco aos domingos, daí o colar com a cruz, sua formação católica, que passa de um episódio a outro -, e O’Connor retruca que o dele, pelo contrário, foi ausente. Confesso, olhem que ridículo, que chorei. A cena é muito bem escrita – e interpretada. Lembro-me de haver falado sobre esta cena com o próprio Vin, e da resposta dele. Citou Sidney Lumet, que havia morrido em 2011 e com quem fizera Sob Suspeita. Disse que Lumet, por confiar nele, lhe dera segurança como ator. O filme, ou a série de filmes, não é só uma correria sem fim. Não é mesmo. Mal posso esperar pelo 9, que confronta Toretto com seu maior adversário – o próprio irmão, John Cena. Família eletiva vs. família de sangue. Com Justin Lin mais uma vez no comando, deve ser bom p’a ca.