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Mania de grandeza (num mundo que se satisfaz em ser desse tamanhinho)

Luiz Carlos Merten

18 de julho de 2019 | 12h21

Confesso que ando solitário, introspectivo, mas é uma coisa que me faz bem, não estou me queixando. Só sinto que fico mais sensível, ou melhor, suscetível, e a nossa pobre humanidade, tão digna de compaixão, não ajuda a melhorar meu ânimo. O coiso deve anunciar nesta quinta, 18, medidas extremas, e uma delas poderá ser a extinção da Ancine, que anda autorizando projetos com os quais ele não concorda. Esse é o homem que anuncia, ou ameaça, nomear um ministro evangélico para o Supremo. Na cabeça não republicana dele, essas coisas fazem sentido, com certeza. Senhor, Senhor, tende piedade de nós, porque as coisas tendem a piorar, e quem acha que a reforma da Previdência vai resolver os problemas do Brasil deveria ter a cabeça examinada. Assisti, esta semana, à cabine de Abaixo a Gravidade e imagino o choque que teria o presidente, se visse o filme de Edgard Navarro, velho (mais novo que eu, é da classe de 49) e querido transgressor. Na igreja, o grafiti – ‘Exu te ama.’ O sincretismo baiano não deve entrar na cabeça de um sujeito que encarna o espírito norte-americano no que tem de pior. A América, dizia Arthur Penn – e seus filmes eram todos sobre isso -, só consegue resolver seus conflitos pela violência. O inominável, idem. Escreveu, não leu, lá vem o gesto – revólver na gente. Assisti também a O Rei Leão, a versão live action de Jon Favreau. Tem tudo a ver com a animação, e ao mesmo tempo nada, porque a VR, realidade virtual, cria um universo tão realista que a sensação é de estar assistindo a um documentário da National Geographic – se os bichos pudessem falar – e não a uma ficção de Hollywood. Scar alia-se às forças da sombra, às hienas, para que Lua se superponha ao Sol e a desolação se instale na savana. Qual personagem shakespeariano, sua ambição pelo poder não tem limites e ele convence o principezinho, Simba, que matou o pai, Mufasa. Simba tenta fugir ao seu destino – a responsabilidade dos reis nobres, que guiam a humanidade das estrelas, como lhe dizia Mufasa – e se une a Timão e Pumba, com seu canto irreverente, Hakuna Matata, ou seja, passa a viver a vida ao Deus dará, sem responsabilidade nem preocupação. Mas a vida vem, e Simba reassume seu lugar no ciclo da natureza – The Circle of Life. Achei belíssimo, uma experiência emocional, sensorial. E chorei, sim, porque o bom da VR é que não é preciso uma face humana de sofrimento para comover. Lembrei-me das galerias de grandes reis de O Senhor dos Anéis e do desfecho de Cleópatra. ‘E o romano perguntou à serva se ela, Cleópatra, morrera dignamente? E a serva respondeu -Dignamente, como convinha à descendente de tão nobres reis.’ E sobe a música de Alex North. Não sei dos outros, mas eu preciso de grandeza. Pequenez já basta a do mundo. Van Gogh – a arte como consolo. Divago – sempre. Não vejo problema nenhum em gostar de A Palavra, nem de Abaixo a Gravidade, nem de Lion King. Não estamos falando de mercado, que é outra coisa. ‘Tio’ Favreau, não por acaso, como ator, faz aquele discurso à filha de Homem de Ferro sobre a permanência do pai dela, no final de Vingadores – Ultimato. Também havia grandeza naquilo.