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Mamma Roma

Luiz Carlos Merten

20 de janeiro de 2014 | 11h23

Não sei se eu consigo dizer que é o meu Pasolini preferido, mas com certeza gosto mais de Mamma Roma que de outros filmes mais valorizados do poeta cineasta italiano. Reconheço a importância de Édipo Rei, Teorema e Porcile, com aquela cratera fumegante como um ânus pulsante, mas me encantam Mamma Roma, e Anna Magnani, Medeia, e a Callas. Minha relação com Pasolini sempre foi tumultuada. Gosto mais do Pasolini pós-neorrealista da primeira hora que do pensador final de Salò. Gaviões e Passarinhos e o episódio A Terra Vista da Lua, de As Bruxas, são lindos e respeito muito o aporte de Pasolini aos roteiros de A Longa Noite de Loucuras, O Belo Antônio e Um Dia de Enlouquecer, mas não a ponto de minimizar a excelência do próprio diretor Mauro Bolognini. O que me encanta em Pasolini, na literatura e no cinema, é sua filiação/devoção a Antônio Gramsci. Foi a entidade que pairou sobre o novo cinema italiano no começo dos anos 1960. Marxista de carteirinha, Gramsci não rezava na cartilha do marxismo tradicional, segundo a qual as condições econômicas determinam as ideias. Gramsci acreditava na hegemonia cultural, e no poder do artista de mudar a sociedade. Era fascinado pelo mundo rural, pelos camponeses, desprezados como ignorantes (e cafoni) mesmo pela esquerda, que preferia apostar no proletariado urbano, e nisso incluo o próprio Luchino Visconti de Rocco e Seus Irmãos. Pasolini amava o que chamava de subproletariado, justamente por sua essência agrária e pré-industrial. Seus escritos e, depois, os filmes – os primeiros – recriam todo um mundo popular, com sua linguagem, seus costumes e comportamentos. Pasolini buscava esses elementos como se fossem sagrados. Escrevo isso a propósito de Mamma Roma, que a Versátil está (re)lançando em DVD. Na época, Pasolini foi acusado de redivinizar a Magnani, como o ex-neorrealista Vittorio De Sica divinizara Sophia Loren em Duas Mulheres. Magnani faz a prostituta que se muda com o filho para um bloco de apartamentos. Sonha com a respeitabilidade, como Rosario Parondi, a grande Katina Paxinou, em Rocco, que quer ser chamada de ‘signora’. Mamma Roma quer integrar-se à classe média, à pequena burguesia, no quadro de uma Itália que se reerguera, economicamente, sob o impulso da ajuda financeira com que os EUA tentavam anular o risco comunista. O filho não compartilha desse sonho. Entra em cena o explorador de Mamma Roma, que pode ser o pai do garoto – Franco Citti. Uma vez prostituta, sempre prostituta – frase que um dos clientes diz à garota de Jovem e Bela, de François Ozon. Citti, o mendigo – Accattone – do primeiro Pasolini, força Mamma Roma a voltar às ruas. Precipita-se a tragédia. O filho delinquente, que não compartilha o ideal de ‘progresso’ da mãe – e a simpatia de Pasolini é por Ettore Garofalo -, será a grande vítima dessa história toda. Encanta-me essa Roma pobre, suburbana, com seus becos, que é o cenário de Mamma Roma. Pasolini, fiel a si mesmo, interessa-se mais pelo subproletariado do que pela pequena burguesia. A essa, ele despreza. Revendo Mamma Roma tive a sensação de que o filme, 50 anos depois, ganhou atualidade para a gente, no quadro da ascensão das classes C e D no Brasil. O final, Mamma Roma, a Magnani, enquadrada naquela janela, é maravilhoso. O ‘meu’ Pasolini é feminino – o desespero no olhar de Mamma Roma, a angústia de Silvana Mangano entregando-se aos ragazzi di vita em Teorema, a animalidade do grito de Callas, assassina dos próprios filhos, em Medeia. Como contraponto a tudo isso, o centauro, na abertura de Medeia, é glorioso. Tutto è santo, como ele diz ao garoto. Pasolini filmava o mistério e buscava, no subproletariado, o mito. E isso é uma coisa que só os revolucionários sonhadores dos anos 1960 – os loucos, os bichos grilos – talvez soubessem, ou pudessem, entender.

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