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Malu Galli, magnífica, como sempre

Luiz Carlos Merten

02 de abril de 2019 | 09h30

Tenho ido todo dia ao Cinesesc para ver os filmes da Mostra Aurora, já que a perna me impediu de ir a Tiradentes, em janeiro. Não encontro os coleguinhas. Não se interessam pelas novas vertentes da produção autoral e independente do cinema brasileiro, ou estavam todos nas Minas, no começo do ano? Formulo a pergunta sem esperar resposta, mas penso que é desinteresse, mesmo. Fui ver ontem Seus Ossos e Seus Olhos, de Caetano Gotardo, hoje pretendo ver A Rainha Nzinga Chegou, de Junia Torres e Isabel Casimira Gasparino. Gotardo e Isabel são atores nos próprios filmes. Ele faz um cineasta, João, que conversa com uma amiga, o namorado ator e um garoto que encontrou no metrô e com quem faz sexo. Gotardo definiu seu filme, na apresentação, como um convite à conversa. Desertei no final da sessão. Fui comer ali perto, no Rubi, a polenta com molho de ragu, acompanhada de vinho. Estava com fome, mas também estava com a mente distante. Preferi não ficar para o debate – aliás, não tenho ficado, nem para o de A Rosa Azul de Novalis, que continua sendo o ‘meu’ filme nesta seleção da Aurora. O tema da edição de 2019 de Tiradentes é Corpos Adiante, e esses corpos convulsivos, muitas vezes convulsionados atravessam as ficções e os documentários da Aurora. Temos aí um problema. Na curadoria, ou no tema? Porque a impressão é de que, se os filmes se enquadram na proposta da curadoria, são mais amadores que autorais, são autorreferentes e, no limite, pode-se muito bem passar sem eles, e aí eu compreendo o desinteresse da crítica, ou parte dela, em prestigiar as sessões. O filme de Gotardo vira um filme dentro do filme, repetindo, com variações, as mesmas cenas, que são ressignificadas, ou nem isso. O namorado reconta, como se fosse com ele, o caso da garota que caiu do palco relatado pela colega atriz (e professora)no ensaio da peça; afinal, tem cerveja ou não na geladeira da amiga que reflete sobre o reencontro com o peruano Nicolás, com quem teve uma relação breve mas intensa – como a de ‘João’ com o garoto do metrô, etc. A metalinguagem, de novo, a encenação antinaturalista sobre a investigação do próprio corpo, e nesse sentido Seus Ossos tem tudo a ver com A Rosa Azul, e ambos são produzidos pela Carneiro Verde de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro. Gostei muito dos três diálogos, e em especial da participação de Malu Galli, que já havia sido magnífica em Aos Teus Olhos, de Carolina Jabor, mas as cenas de (homos)sexo não me convenceram. Era como se os corpos (adiante?) encenassem uma coreografia, mas as pessoas, os atores, não estivessem realmente ali. Só um tanto de exibicionismo fake, ao contrário da visceralidade das encenações – o documentário imaginário – que Marcelo Diorio constrói para a sua persona em A Rosa Azul. Não estou pedindo para ver, entendam, mas quando João relata ao namorado que sentiu tesão pelo carinha do metrô e ambos ficaram de p… duro ao se tocar na escada rolante do metrô, a fala não corresponde à ação, porque aqueles caras se esfregam, esfregam, beijam e tudo mais, ficam de cueca, e tecnicamente nada. Confesso que pode até ser perversão minha, mas fiquei incomodado, até porque o ato de radicalizar o próprio exibicionismo de Marcelo – como quando diz que gosta de ‘representar’ durante o ato com seus parceiros – é que faz a diferença e faz com que A Rosa Azul vá um passo adiante de Lembro Mais dos Corvos, também de Gustavo Vinagre, em que Julia Katharine é sempre uma lady. (Marcelo, pelo contrário, age como uma vagabunda, mas da alta, altíssima cultura.) Paro por aqui porque o post está tomando um rumo que pode ser perigoso, mas com certeza achei Seus Ossos interessante, mesmo que tenha abandonado Caetano Gotardo pelo caminho. De alguma maneira, seu filme vai arreglando (diluindo?) o próprio conceito.