As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Maio de 2016 não vai terminar nunca?

Luiz Carlos Merten

27 de fevereiro de 2017 | 15h15

Fiquei quase todo o mês de fevereiro fora e, ao voltar, havia um monte de revistas estrangeiras de cinema na banca do Conjunto Nacional. Cahiers, Film Comment, Sight & Sound, CinemaScope, Première, Studio etc. Passando uma vista d’olhos e misturando tudo, hesitei num post que cheguei a começar ontem, domingo. Não me lembrava em qual revista havia garimpado a informação. Achava que era numa das revistas de língua inglesa. Foi na Première francesa. A revista tenta entender as regras de seleção, até para explicar a aparente incongruência – Isabelle Huppert foi indicada para melhor atriz no Oscar por Elle, mas o thriller de Paul Verhoeven foi descartado. Até aí, normal, ocorre seguido, mas Première investiga os mecanismos que cada país estabelece para formular sua pré-indicação. A revista invoca o caso de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, para tentar explicar como o filme não foi o representante do Brasil, mo que parecia perfeitamente natural, dada a repercussão que teve. Lembra o protesto na escadaria do Palais, em Cannes, em maio do ano passado, quando a equipe de Aquarius segurou aqueles cartazes denunciando o golpe contra a presidente Dilma Roussef. Première encampa a tese do complô. As chances de Aquarius caíram port terra quando Marcos Petrucelli – citado nominalmente – foi indicado para a comissão de seleção, justamente ele, um público e notório desafeto de Kleber e seu filme. Dessa maneira, e sob uma aparência de legalidade, o governo conseguiu o que queria. Lançou Aquarius no limbo. Parabéns, Petrucelli, estás vendido, a nível internacional, como golpista. A leitura que se pode fazer de tudo isso ainda não acabou. Todo o processo de impeachment, sob um manto de legalidade – o ‘rito’ da Câmara -, dificilmente se poderá dizer que foi transparente, e ético. A legitimação foi feita pela imprensa com base nos baixos índices de aprovação de Dilma. E os de Michel Temer, agora? Não representam nada? Será que, como o maio de 1968, o de 2016 não vai terminar nunca?

Tendências: