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Mãe guerreira

Luiz Carlos Merten

25 de outubro de 2013 | 12h14

Tem havido, nos últimos tempos, uma leva de filmes, a maioria documentários, abordando os anos de chumbo e a memória da guerrilha. O ciclo est´[a longe de encerrar-se. Wagner Moura vai fazer o Marighella dele, como diretor. Mal posso esperar. Para quando, Wagner? 2014? 15? Vi e defendi Repare Bem, de Maria de Medeiros, mesmo tendo me referido ao filme, no debate em Gramado, como ‘tosco’. O forte de Repare Bem não é sua estética, mas o testemunho, e a palavra. Vi agora na Mostra Setenta, de Emília Silveira, mãe de meu colegas Felipe, da sucursal do Rio. De novo a memória dos anos de chumbo, agora por meio dos guerrilheiros que participaram do sequestro ou foram trocados pelo embaixador suíço. Emília, que é jornalista (na Globo), tirou um ano sabático e foi atrás dos personagens, filmando no Chile e na França. Como toda documentarista, ela não sabia o filme que ia fazer. A princípio, assustou-se. Achou que, pelos motivos óbvios, seu filme não agradaria à direita, mas temia ser incompreendida também pela esquerda. Seus ex-guerrilheiros fazem autocrítica, lembram os que tombaram em combate, mas também aqueles que nunca se recuperaram da tortura. Frei Beto, Frei Beto, Frei Beto. A garota que se jogou no metrô, em Berlim. São histórias de dor, de resistência. Mas, de todos esses filmes recentes – e o de Maria de Medeiros é muito chorado -, o de Emília me passou, como vou dizer?, uma alegria selvagem. A história do casal que foi para a clandestinidade com seis filhos. O falsificador de documentos que achava que não enganaria um cobrador de ônibus com seus passaportes fajutos. O pai que sempre se sentiu culpado por haver negligenciado os filhos e o filho que lhe disse que tinha orgulho dele, por ter tido coragem de lutar por seus ideais. No limite, todos esses filmes, ou a maioria, passam um sentimento de derrota, de frustração. Nós que amávamos tanto a revolução. Os órfãos. O filme de Emília foi o que mais passou para mim, malgrado tudo o que foi perdido, o sentimento de que valeu a pena, de que não foi em vão. Impressiona-me muito o discurso final de Salvador Allende, aquele em que ele diz que a violência será lançada contra ele – contra nós -, mas a semilla não poderá ser extirpada.  No Rio, durante o festival – e as manifestações -, ouvia, en passant, os integrantes das assembleias que se realizavam na rua e simplesmente não entendia quando muitos deles diziam que vivemos sob uma ditadura pior que a dos militares. Tudo bem, talvez se referissem ao Cabral, mas essa ditadura que vivemos hoje (como?) voltou como tema no debate após a projeção de Setenta, anteontem à noite. Devo ser louco ou alienado, mas no estado do mundo não vejo as coisas assim. Nunca se criticou tanto no Brasil – o governo, as instituições. Ditadura? Ou é ignorância, ou má fé, ou ambas. O mundo mudou, isso sim. E o que percebo, em toda parte, é uma insatisfação imensa. O filme de Emilia Silveira fortaleceu minha crença de que a semente não foi em vão. Setenta é bem-feito, muito mais ‘acabado’ que Repare Bem. Emília me disse, após o debate, que não sabe se volta para o jornalismo. Madura, tomou gosto pela coisa e quer seguir cineasta. Meu amigo Felipe só tem motivos para se orgulhar dessa mãe guerreira. O filme, espero, ainda não esgotou seu ciclo na Mostra. Veja, e vamos esperar que o Adhemar Oliveira abra umas brecha para o Setenta no seu circuito de resistência. É um filme que poderia ter uma vida muito interessante nos projetos didáticos da mulher dele, Patrícia Durães. Cinema na Escola, Clube do Professor.

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