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Madame Satã, o musical

Luiz Carlos Merten

20 de agosto de 2019 | 21h19

Saí de casa no sábado à noite para ver o Tutankáton, de Otávio Frias Filho, mas desisti, porque achei que talvez fosse complicado comprar ingresso em cima da hora, no Sesc Paulista. Resolvi mudar o rumo e toquei para o Centro, para ver A Profissão da Senhora Warren no Aliança Francesa. George Bernard Shaw, direção de Clara Carvalho. Na esquina da Consolação com São Luiz, o sinal estava fechado, o táxi parou, olhei para o lado (direito) e vi o cartaz do Teatro Jaraguá – Madame Satã. Ops! Tendo lido a célebre entrevista de João Francisco dos Santos no Pasquim e, claro, visto e revisto o filme de Karin Aïnouz com Lázaro Ramos, fiquei tentado a ver do que se tratava. Desci do táxi, fui à bilheteria do teatro e comprei ingresso. Não foi fácil assim, porque a fila era extensa, mas deu tudo certo. No final, um dos atores agradeceu a presença do público – estava cheio – e disse que uma peça sem patrocínio nem verba para divulgação só sobrevive com o boca-a-boca dos espectadores. Bem falado. Na quarta, vou a Gramado e espero encontrar o Lázaro, que recebe o prêmio Oscarito deste ano. Gostaria de incentivá-lo a ver a montagem, se é que já não viu, até porque ninguém mais que o Lázaro sabe como filme e personagem foram decisivos para colocá-lo no lugar em que, merecidamente, está. Não tinha programa, fôlder, nada. Na bilheteria, informaram que acabou e deve chegar mais. Pesquisando, descobri que se trata de um grupo mineiro, o Grupo dos Dez, que já se havia apresentado na cidade há dois anos, e cujos créditos vão para os diretores João das Neves, in memoriam, e Rodrigo Jerônimo e para a diretora musical Bia Nogueira. Madame Satã começa na rua, em frente ao teatro. A rua que foi o grande palco em que João fez de sua vida uma forma de arte. P… fazendo o trottoir, gigolôs numa roda de samba. Uma briga, morte. Corre todo mundo para dentro do teatro e começa o show. Um cabaré da Lapa. Preconceitos, no plural, de raça e gênero. Negritude, homossexualidade, o universo trans, repressão policial, violência sexual. O formato é musical, e três atores dominam a cena com sua presença poderosa, abraçando um personagem que se beneficia dessa multiplicidade para expressar o quanto é complexo. Esdras de Lucía, Rodrigo Negão e… Caraca, esqueci o nome do terceiro e informo que cito de memória (pelo que me lembro do cartaz). Gostei de ter visto, gostei do elenco, da trilha e da forma como a dramaturgia usa essa figura emblemática da cultura LGBT para tentar dar conta da miséria social e humana desse País que navega no retrocesso. São cenas de uma vida, uma era, de um mundo que persiste em subsistir e que remetem, o tempo todo, ao aqui e agora. No meu imaginário, Madame Satã dialoga muito bem com Navalha na Carne Negra, que foi meu espetáculo de teatro preferido do ano passado.

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