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Macunaíma, ai que preguiça!

Luiz Carlos Merten

05 de agosto de 2019 | 10h00

Fui ver ontem Macunaíma, a rapsódia musical que Bia Lessa adaptou de Mário de Andrade. Como tudo o que ela faz, a montagem virou a maior sensação. Ingressos esgotados, e eu paguei duas vezes sem poder ir, em dias anteriores. Dessa vez, tenho de agradecer a gentileza da produção, e do Sesc. Grande Sertão já provocara o mesmo frisson, de crítica e público, mesmo que Bia tenha destruído a prosódia de Guimarães Rosa. Era um espetáculo lúdico, construído no gestual. Contei a história para o Ismaelino, durante um jantar no Cine PE e ele quase morreu engasgado, de tanto rir. Com a Bia não tem nhe-nhe-nhem, é todo mundo nu. Não tem essa de feio ou bonito, grande ou pequeno – grande, preferencialmente. No Grande Sertão, havia um ator negro que virou o tititi. A montagem tinha aquele formato esquisito, que não era bem arena, naquele espaço que não era o do teatro do Sesc Consolação, e o cara, o tripé da peça, ficava num ponto que eu teria de ter levantado para conseguir ver. Um homem na minha posição, nem f… Perdeste! Mijava-se de rir, o Ismaelino. Agora, não houve ‘perca’. Sentei-me na frente, B20, era todo mundo balançando os balangandãs de Yayá ali, na cara da gente. Macunaíma! O herói da nossa gente, nascido na mata-virgem. O índio que nasceu preto e virou branco na cidade. O livro propõe uma alegoria da formação do povo brasileiro, de sua cultura. Joaquim Pedro transformou-o numa festa tropicalista, em que a feijoada do Piaimã comedor de gente metaforiza a antropofagia – Tupi or not Tupi. Bia vai pela via da rapsódia musical, mistura dialeto indígena (gostei demais da sonoridade) com Adoniran Barbosa, Bach, Strauss, Jorge Benjor, Edith Piaf, etc. Imagino o processo. O pessoal da Cia, Barca dos Corações Partidos é de uma entrega visceral. Mas vamos por partes. Nunca vi o celebrado Macunaíma de Antunes Filho, a quem respeitava sem realmente admirar. Gostava de pouca coisa dele, de seu Veredas da Salvação, principalmente. Mahabarata era o ó, e Blanche acho que foi a pior coisa que vi de teatro na vida. Bia foi atriz de Antunes, dedica seu espetáculo ao mestre. Mas ela não veio das artes cênicas, e sim das visuais. Fez uma polêmica exposição de pinturas em que os quadros saíram das paredes e foram para o chão, obrigando o público a vê-los de cima. Nos 90, adaptou O Eleito, de Thomas Mann, para o sertão e fez Crede-Mi, o que, considerando a ‘ousadia’, levou a crítica semi-analfabeta a tecer as maiores loas ao filme, em detrimento do roseano Outras Histórias, de Pedro Bial, seu contemporâneo (e, por ser global, execrado). Grande Sertão era aquilo, um elogio artaudiano (de Antonin…) ao corpo, o que não deixa de ser interessante, mas um tanto insatisfatório como abordagem para a grandeza de Rosa, cujo fascínio, para mim, está no verbo. E veio Macunaíma, mas antes P.I. Panorama Insano. Ao entrar no Teatro Antunes Filho, do Sesc Vila Mariana, e ver o plástico escuro cobrindo o tablado, imediatamente pensei na ‘onda’ felliniana que encerrava P.I. Vai ter repeteco, pensei comigo. Teve. No programa, Bia diz duas coisas que me levaram a ter esperanças. Sua concepção do espetáculo, para o qual foi convidada, amadureceu a partir de duas falas – ‘Ai, que preguiça!’, e a constatação do mundo como está, e a ideia de que o problema do Brasil é a monocultura – a perda da diversidade no Brasil de Jair Bolsonaro, que joga para o time de Donald Trump (agora sou eu falando) e da brasileirada de Miami. Todo o primeiro ato, a representação do mundo dos índios, é muito plástico, no sentido de estético. O plástico escuro vira tudo, incluindo bicho, na cena da caçada, que é muito bela. Já a cidade não me convenceu tanto, e o segundo ato, quando Macunaíma chega a São Paulo e tenta recuperar o amuleto de Ci, que Joaquim Pedro – no inferno da ditadura que o presidente diz que não houve – transformava em guerrilheira, me pareceu mais uma salada que uma rapsódia. As bolhas plásticas para representar o isolamento, a automação e a alienação como críticas à ‘civilização’, a maneira como Macunaíma enrola Pietro para recuperar o muiraquitã (é o ou a?), tudo isso me deu a impressão de que Bia fez uma leitura pra lá de superficial da tal rapsódia andradiana (de Mário), mas jogou habilmente para sua plateia, que no final brinda o elenco com uma ovação estrondosa. Eles e elas merecem, pelo esforço, mas pela própria concepção cênica, baseada no movimento, ninguém ali deixa suas tripas nem seu coração no palco, interpretando de ‘dentro’. É uma carnavalização, que faz sentido dentro da rapsódia, mas saí do teatro pensando em Grande Otelo, em Paulo José, em Dina Sfat, em Jardel Filho. Tenho de confessar que nunca fui muito fã de Macunaíma, o filme. Ao Joaquim tropicalista, prefiro o mineiro – O Padre e a Moça, Os Inconfidentes (que já é, antropofagicamente, a história de um brasileiro, Tiradentes, devorado pelo Brasil). O saldo mais positivo do Macunaíma de Bia foi ter me deixado com vontade de (re)ver o de Joaquim Pedro.

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