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M. Chabrol, o autor glutão da nouvelle vague

Luiz Carlos Merten

20 de julho de 2019 | 10h26

Gosto muito de um Godard (O Desprezo, acho até que mais até por Fritz Lang), de um Truffaut (o rosselliniano Garoto Selvagem), adoro Rohmer (Os Contos Morais), tenho a maior admiração por um Rivette tardio (Ne Touchez pas la Hache) e simplesmente venero o casal Jacques Demy/Agnès Varda, mas quando penso na nouvelle vague o meu número 1 é sempre Claude Chabrol. Ele teve a que me parece mais interessante trajetória do movimento. Começou formalista (Nas Garras do Vício e Os Primos), teve a sua fase comercial, filmando não importa o quê (mas, como dizia, o importante era como) e, no fim dos anos 1960, numa volta por cima espetacular, estava fazendo os melhores filmes da França – do planeta? A Mulher Infiel, Que la Bête Meure, O Açougueiro. Depois, e até sua morte, em 2010, Chabrol seguiu filmando com uma regularidade impressionante, filmes bons, não tão bons, mas todos com sua marca inconfundível – sua patte. Chabrol viveu tanto que tive o privilégio de entrevistá-lo, em Berlim, não uma individual, como teria gostado, mas um grupo pequeno e entusiasta. Foi o Chabrol da lenda – com seu charuto apagado no canto da boca, irônico, sempre brilhante, tirando leite de pedra mesmo das perguntas que pareciam mais banais. Perguntamos (não fui eu) o que mais gostava de fazer – meditar. E o seu ideal de felicidade – não ter tempo de meditar. É um pouco meu ideal, também. Perde-se muito tempo pensando. Viver é melhor que pensar, um paradoxo – talvez. Sempre me atraiu o encantamento de Chabrol pelos monstros da pequena burguesia de província, seus personagens que não raro flertam com o mal. Entrevistei-o em fevereiro de 2010 e Chabrol morreu em setembro daquele ano, dia 12, no meu aniversário. Entrevistei Bernadette Laffont três anos mais tarde, em Paris. A atriz que, na juventude, melhor representou e egérie nouvelle vague, filmando com Chabrol e Truffaut, deu-me seu testemunho sobre ambos. Eram como dia e noite, Sol e Lua e, pelo que Bernadette contou, Chabrol era mesmo um glutão, amante da boa comida, do bom vinho, transformando suas filmagens em aventuras gastronômicas. Foi essa ideia que ele me passou, a de alguém que não se tomava excessivamente a sério e para quem havia coisas mais importantes que o cinema, e isso por mais importantes que fossem os filmes. Cá estou viajando nas lembranças, e por que mesmo? Ah, sim. Começou esta semana na Sala Cinemateca uma programação especial dedicada ao autor. De quinta a domingo – amanhã. Depois, de quinta a domingo da próxima semana. Não todo Chabrol, mas uma seleção parcial de seus filmes, todos em 35 mm. Hoje, será possível (re)ver Ciúme, o Inferno do Amor Possessivo; Negócios à Parte e A Teia de Chocolate. Amanhã, A Dama de Honra e Inspetor Lavardin. Na próxima semana, além da repetição de alguns desses filmes, outros serão agregados – Betty, uma Mulher sem Passado, Madame Bovary, Os Mágicos. Nenhum Chabrol da primeira fase, nem da melhor fase, os filmes extraordinários do biênio 1968/69. Mas todos com a sua pata, sempre chabrolianos. O mais antigo, Les Magiciens, é de 1976, com Steffania Sandrelli e Franco Nero. A maioria dos restantes é dos anos 1980 e 90. Três filmes com Isabelle Huppert, uma favorita – Mulheres Diábolicas já passou, mas restam Madame Bovary e Negócios à Parte. Creio que foi a atriz com quem ele mais filmou, depois de Stéphane Audran, com quem foi casado. Uma adaptação de Georges Simenon, Betty, e outra de Ruth Rendell, A Dama de Honra, porque Chabrol sempre amou as tramas criminais. Muito importante – todas as sessões são gratuitas, basta retirar ingresso meia hora, ou uma hora, antes.