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Lúcio Cardoso da selva

Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2015 | 10h26

TIRADENTES – Milton Hatoum fez sua aparição na tela do Cine-Tenda, como o barqueiro que leva provisões a Daniel de Oliveira. Mas ele não veio – nem para a pré-estreia mundial do filme adaptado de seu livro Órfãos do Eldorado nem para a homenagem a Dira Paes. Aberturas de eventos de cinema tendem a ser massacrantes. A de ontem, aqui em Tiradentes, foi. Começou tarde, teve um belo discurso de Raquel Hallak e Dira estava resplandescente, mas todos os patrocinadores e apoiadores – seus representantes – subiram ao palco, houve agradecimentos. O público inquietou-se. E veio o filme. Vamos por partes, como diria o esquartejador. Dira está linda na tela, Daniel de Oliveira disputa com Cauã Reymond o título de falo de ouro do cinema brasileiro – abatem todas -, mas eu confesso que ele é um pouco intenso demais (atormentado?) para o meu gosto. Prosseguindo – a fotografia é linda, a pesquisa sonora, não apenas musical, é boa, mas o filme… Toda adaptação é sempre uma leitura, uma visão do original. A de Guilherme Coelho, diretor e roteirista, reduz a encantaria amazônica e toma liberdades que não reproduzem  na tela a grandeza do texto de Milton Hatoum. O recorte, com ênfase nos choques familiares e sexuais, faz de Hatoum um Lúcio Cardoso da selva (não será?), e sem a encantaria dos livros. Sem querer ser ofensivo, é um Paulo César Saraceni piorado, mas com todos aqueles defeitos de confusão narrativa que faziam de O Viajante uma experiência árdua, senão desastrosa – há quem goste, sempre há. É curioso como o cinema autoral muitas vezes se diferencia do narrativo só por implodir a maneira de contar a história, mas fragmentar nem sempre ajuda na compreensão e nem favorece o desenho dos personagens. Uma amiga me resumiu o sentimento – ‘Conseguiu entender?’, perguntou. Ela tinha falado com uns dez – críticos, presumo -, que estavam boiando. Daqui a pouco teremos um painel sobre Dira, com a participação do diretor e de outros convidados. Embora seja uma celebração da carreira da atriz, o tema do filme vai surgir, com certeza. Vamos ver o que Guilherme dirá.