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Louis Garrel e o vaivém dos sentimentos e das casas em Um Homem Fiel

Luiz Carlos Merten

10 de julho de 2019 | 09h57

Havia visto L’Homme Fidele em Paris, em fevereiro. O longa dirigido e interpretado por Louis Garrel estava no Panthéon, no Quartier Latin, na Rue Victor Cousin, onde fica o hotel em que costumo me hospedar, próximo a todos aqueles cinemas de art e essai que me encantam. Champo, Reflets Médicis, La Filmothèque du Quartier Latin, etc. Paris tem sido minha escala antes ou depois de Berlim, de Cannes, e este ano não foi diferente. Berlim, já que tive de abrir mão de Cannes, em maio, por conta da situação da minha pernas, e da cirurgia, que terminei fazendo. Havia gostado muito do Garrel, e até entrevistei o roteirista Jean-Claude Carrière por sua parceria com o autor. O autor! Louis, filho de cineasta (Phillipe Garrel), neto de ator (Maurice Garrel), segue a tradição familiar. Talvez seja o último diretor da nouvelle vague francesa. O último na França, porque o sul-coreano Hong Sang-soo, tanto ou mais que ele, é cria de… Eric Rohmer! Lamentei não ter revisto o filme antes de conversar, pelo telefone, com Carrière. Preocupado com o triângulo, Abel/Louis-Marianne/Laetitia Casta-Eva/Lily Rose-Depp (a filha de Johnny Depp e Vanessa Paradis), esqueci-me do essencial. O pequeno Joseph. Abel ama Marianne, que engravida de Paul e o troca pelo amigo, mas ela fica viúva, reaproxima-se de Abel. Joseph, o filho, tece a fantasia de que a mãe matou o pai. Marianne joga a cunhada, Eva, nos braços de Abel, somente para que ele volte para ela. E Joseph? Ele tem sua parte nessa intriga – a gravação que mostra para Eva -, e ontem, ao rever o filme, me pareceu o mais perturbador dos personagens. Louis, à maneira de Rohmer, tece um conto moral baseado na fragilidade das relações e no vaivém dos sentimentos (e das casas). Abel mora com Marianne, deixa a casa para que ela viva com Paul, volta a morar com ela, deixa a casa para ir viver com Eva. E todo o mundo, o quarteto, só se encontra no começo, e no fim, no cemitério. Carrière, 88 anos. Louis, 36. Achei muito interessante a forma como desdramatizam a morte, e até acho que Um Homem Fiel, como o filme se chama no Brasil, daria um programa muito interessante no Cineclube da Morte do Belas Artes. Fiquei com duas questões que não sei se consegui articular muito bem. Afinal, o médico, que poderia ser cúmplice, é ou não gay, e por que o detalhe vem à tona? E por que Joseph estende a mão para Abel, e somente para ele? Adorei rever Um Homem Fiel ontem à tarde, no CineSala, em pleno feriado. Vi às 14 h, as pessoas saíram comentando, surpresas com o aspecto não conclusivo do filme. Para a sessão seguinte, havia mais público ainda. Cinema de rua, frio, sol. Por um momento pensei que estava no ciné Panthéon.

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