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Loucos de (des)amor

Luiz Carlos Merten

27 de outubro de 2006 | 08h49

Havia gente pelo ladrão ontem à noite para ver Shortbus, de John Cameron Mitchell, no Reserva Cultural. Em Cannes foi a mesma correria, o que me leva a presumir que o público adora uma boa sacanagem. A sala 2 lotou e foi preciso abrir a 1, que também lotou. O amigo que foi ver Shortbus comigo comentou na saída – ‘Achei que o Heitor Dhalia tinha feito um filme sobre gente doente em O Cheiro do Ralo, mas estou mudando de idéia.’ Tem mais gente desestruturada, desajustada, doente em Shortbus. Freqüentam o clube do título, onde a liberação é geral. Compõem uma verdadeira antologia de… Quê? Taras, perversões, casos clínicos? Tem a terapeuta que não goza e finge para o marido, o par de gays em crise (o namorado se filma fazendo sexo oral em si mesmo), a drag queen e por aí afora. Compõem uma fauna urbana, mas a cidade que Mitchell filma é falsa, uma maquete, o que já diz alguma coisa sobre sua intenção de comentar o mundo atual. O problema de um filme como Shortbus, para mim, é que sua transgressão é de fachada. As pessoas se desesperam trepam (de todos os jeitos), se desesperam de novo, sofrem, choram para a câmera. Mitchell parece que ousa com suas cenas de sexo explícito, mas, no final, como em qualquer comédia romântica que se preze, todo mundo têm direito a sua segunda chance e é um tal de dar tudo certo que parece que Mitchell vai desenhar um arco-íris sobre a sua Nova York de mentirinha. Não é que seja a mesma coisa, mas eu, pessoalmente, gostei muito mais de C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor, de Jean-Marc Vallée, onde o desajuste familiar daquele gay reprimido me pareceu muito mais sincero (e menos ‘escandaloso’ posado). Posso ter exagerado, porque fiz até uma ponte entre C.R.A.Z.Y. e o meu filme preferido, Rocco, de Visconti – família, cinco irmãos, pai autoritário substituindo mãe possessiva, o irmão que precisa ser sacrificado para que o grupo se una (como Rocco conta a Nádia, na parábola do tijolo que é preciso lançar fora quando se constrói a casa nova). De qualquer maneira, o sucesso de Shortbus na Mostra deixa claro que há uma demanda do público GLS por um tipo de obra que o retrate. C.R.A.Z.Y. passa hoje às 23h40 no Arteplex 3. Mas você vai ter de escolher. Shortbus vai passar no mesmo horário, no Unibanco 1.

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