As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Longa vida a Cannes!

Luiz Carlos Merten

23 de maio de 2016 | 10h30

PARIS – Cá estou, mais uma vez. Cheguei faz tempo e já estou instalado no hotel. Meu quarto tem uma janela com vista… para a Sorbonne. Quando era garoto, no Brasil, e a cultura ainda não americanizada, as luzes da França pareciam inatingíveis, e a Sorbonne, com todos os seus filósofos, me parecia extraordinária. Nada como o tempo. Ontem à noite em Cannes, terminada a cerimônia de premiação, corri para as coletivas e depois fui jantar, antes de retornar ao hotel para redigir meus textos no Caderno 2 de hoje. Fui ao Caffé Roma, que me parecia o mais rápido (estava sozinho). Sentei-me numa mesa da calçada e, de repente, estavam passando Eryk Rocha, sua mãe, Paula Gaitan, a mulher, Michele (será com um ou dois Lls?), e o montador de Cinema Novo, o Marcelo. Eryk vai ser se negocia uma rápida entrada no filme no Brasil, para capitalizar o ouro de Cannes. Mirávamos no filme de Kleber Mendonça Filho, o belo Aquarius, e no final foi o documentário de Eryk que ganhou o L’Oeil d’Or, o Olho de Ouro, para o melhor filme de categoria. Paula havia visto, e gostado muito, do Ken Loach que, inesperadamente, ganhou a Palma de Ouro. Embora muito bem avaliado nos quadros de cotações do festival, Loach não era citado entre os concorrentes mais fortes à Palma. O favorito da maioria da imprensa,. mas não meu, era o Toni Erdmann, da alemã Maren Ade, que nada levou. Também não levaram o filme do Kleber, o Elle de Paul Verhoeven – que provocou sensação e se tornou outro favorito, mas que eu achava (escrevi aqui) que não seria palmarizável. Quando vi o iraniano, The Salesman/Le Client, de Asghar Fasrhadi, tive um choque e achei que a Palma viria dali. Imagino que tenha havido alguma divisão do júri, mas dois prêmios para o Farhadi (ator e roteiro) confirmam que o impacto não foi só meu. Lamento que Jim Jarmusch não tenha levado nada com seu magnífico Paterson, mas o filme levou – a Palme Dog, atribuído a Nellie, a buldogue que faz Marvin. Não sei por que uma fêmea no lugar de macho (e macho no lugar de fêmea, na velha série Lassie), mas os cães, pelo visto, derrubaram a questão de gênero – macho/fêmea – há muito tempo. Nota triste. A Nellie morreu e a Palme Dog foi póstuma. Gostei, e nisso devo estar sozinho, do Grand Prix para o canadense Xavier Dolan, por Juste la Fin du Monde. Há dois anos, Dolan, com Mommy, dividiu o prêmio especial do júri com Jean-Luc Godard, por Adeus à Linguagem. Eram o mais jovem e o mais velho concorrentes daquele ano. Este ano, Xavier, aos 27 anos, continuou sendo o concorrente mais jovem e Loach, aos 80, era o mais velho. O júri de George Miller deu seus prêmios mais importantes – o Grand Prix é tecnicamente, o segundo maior – a autores em diferentes etapas da vida. Não creio que tenham sido escolhidos por isso, mas me agrada que tenhamos tido esse reconhecimento. Dolan, com sua família totalmente disfuncional, levou o prêmio ecumênico. E Loach, velho esquerdista, segue militando por um conceito – uma ideia – em baixa, o humanismo. Tem gente que o acha anacrônico – eu, não. E ninguém faz melhor naquele registro naturalista. E a verdade é que, mesmo quem esperava outro(s) vencedor(es), não teve coragem de vaiar I, Daniel Blake. É uma escolha polêmica, mas, no fundo, corajosa do júri de George Miller. Foi a segunda Palma de Loach. Há dez anos, ele foi premiado com Ventos da Liberdade, e ou me engano muito – a memória, às vezes, é traiçoeira – ou Wong Kar-wai era o presidente do júri. Este ano, levou de novo, sob a presidência do diretor da série Mad Max. Kar-wai e Miller fazem cinemas completamente diferentes do de Loach. Que o tenham escolhido me parece um voto de confiança na diversidade. Cannes é isso – autores radicais e o glamour do tapete vermelho. É um espaço de resistência em que os jovens avançam. A propósito, parece piada, mas vi uma entrevista de Thierry Frémaux, que faz a seleção oficial, na TV. O entrevistador resolveu colocar Thierry contra a parede – outra seleção, a deste ano, com nomes conhecidos, mais do mesmo. E Thierry, para o entrevistador – “Mais c’est juste comme ça. Há mais dez anos que você me entrevista todo ano. Não acha que está na hora de renovar o quadro de sua TV? Eu mudo, mas no ano que vem outro me entrevista, que tal?” Amei. Dolan, Grand Prix. Eryk Rocha, Olho de Ouro, Ken Loach, a Palma. Longa vida a Cannes!