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Loach, na veia

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2020 | 09h45

Eu, às vezes, me considero anacrônico e me coloco em xeque muito mais do que todos os críticos que sei que tenho conseguiriam me encurralar. Não sou louco de ignorar as qualidades de filmes como Parasita e 1917, nem a importância da vitória do primeiro no Oscar. Aliás, uma amiga entusiasta do Bong Joon-ho só achou excessiva a dupla vitória como melhor filme e melhor filme internacional. Eu achei muito interessante e, se não estou equivocado, de cara os apresentadores lembraram o problema dos envelopes que deram aquela confusão do ano de Corra! e La La Land, deixando claro que não iria se repetir. Era como se soubessem o que ia ocorrer este ano e a própria Academia enviasse um recado. Contados os votos, lacrados os envelopes, um mínimo de gente sabia o resultado e, portanto, não haveria a menor possibilidade de quem quer que seja, o comitê, por exemplo, decidir que o filme sul-coreano teria de ganhar só uma das duas estatuetas. Foi o mais histórico – essa dupla vitória. Hollywood sempre separou os filmes estrangeiros dos de língua inglesa. Dessa vez, unificou o cinema do mundo sob a mesma bandeira. Uau! E isso na sequência das sucessivas vitórias de três diretores mexicanos que ganharam quatro (quatro!) Oscars de direção num péríodo de quanto? 5 ou 6 anos. Mas, enfim, volto ao início do post, o meu ‘anacronismo’. Tanta polêmica sobre Oscar, e eu que já amava acima de tudo o Pedro Almodóvar, Dor e Glória, terminei tendo um choque com o Loach. Você não Estava aqui, que não significa a mesma coisa que o título nacional, Sorry We Missed You, concorreu em Cannes no ano passado. Eu não estava lá – estava no hospital, para a reposição de prótese. Alejandro González-Iñárritu presidia o júri e é o mexicano que bisou o Oscar de direção, por Birdman e O Regresso. Iñárritu fez Amores Brutos e Babel, cujas histórias cruzadas estão mais próximas da construção dramática de Parasita. Jamais premiaria o realismo visceral, à flor da pele, de Kean Loach. Nem a Academia – Loach pode ser um dos mais premiados diretores do mundo, mas nunca foi sequer nominado no Oscar. Eu fiquei chapado. Procurei nas revistas de língua inglesa que compro e Sight and Sound, mesmo não gostando muito, escreveu uma coisa bonita. Disse que Loach anunciou em Cannes que estava se despedindo. Se isso for verdade, não poderia haver despedida mais angustiante, pegando carona no que disse Luiz Zanin Oricchio quando nos encontramos no final da sessão. O filme é angustiante. Family life – vida em família, de novo. Ricky e Abby dão duro para criar o casal de filhos. Ela cuida de idosos, ele arranja um desses empregos uberizados, como entregador. Endivida-se para comprar a van, não tem direitos. Ganha por rota, paga caro pela maquineta que o liga à firma (deve ter um nome, que não sei) e é descontado quando para. A coisa escapa ao controle – Ricky trabalha demais, começa a distanciar-se da mulher, briga com o filho, é assaltado e fica todo rebentado. Vai ao hospital público, na fila de espera – se bem me lembro, naquele documentário do Michael Moore sobre saúde, o sistema foi a única coisa que Margaret Thatcher não teve apoio para privatizar na Inglaterra. O filme vai num crescendo, Torna-se angustiante. A saída, onde está a saída? Loach dirige atores melhor que ninguém, cria, com seu roteirista Paul Laverty, cenas que dão a impressão de que a gente está invadindo a privacidade das pessoas. É um humanista radical, esquerdista de carteirinha, com uma visão muito crítica do estado do mundo. Bong Joon-ho não deixa de compartilhar o sentimento pelos excluídos, mas o manifesta de um outro jeito. Mais cínico, talvez? Loach vai na vêia. Sei que não existe o acento, mas é para que ninguém faça piada, achando que ele vai na véia. Estarei sendo anacrônico?

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