As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Livros, livros, livros

Luiz Carlos Merten

22 Fevereiro 2013 | 10h28

Cheguei na terça de manhã, e baleado. Em Paris, já tinha ficado bem ruinzinho e em Berlim fui diagnosticado com bronquite, o que me obrigou a entrar no antibiótico. O tempo não ajudava – frio, neve -, mas sobrevivi e melhorei. Cheguei aqui e a mudança de temperatura me derrubou de novo. Lá fui para o pneumologista, o dr. Daniel Deheinzelin, que já me botou num tratamento prolongado, para ver o que de fato ocorre com meu pulmão. Ontem, comemoramos no Lello os aniversários de Dib Carneiro e João Luiz Sampaio. Parabéns aos amigos! Reencontrei Fátima Cardeal – agora vovó da Nara -, a vida continua, e ainda bem que é assim. Meu último post havia sido sobre o Lubitsch a que assisti no encerramento do Festival de Berlim, Ser ou não Ser, To Be or not To Be. Um dos problemas da Alemanha, para mim, é que não falo alemão e o país também não tem uma tradição de livros em língua estrangeira. Vou à livraria do Arkaden, o grande shopping de Potsdamer Platz, junto ao Berlinale Palast, e fico folheando aqueles álbuns e livros de cinema, tentando adivinhar o que dizem as letrinhas. Mas há, no Cinemaxx, uma feira de livros de cinema que, durante o festival, ocasionalmente, oferece alguns livros em inglês. Comprei três – um deles era sobre Lubitsch, Laughter in Paradise, de Scott Lyman, que li no voo de volta, especialmente os capítulos sobre Ninotchka e To Be or not To Be. Lyman abre seu livro de forma muito sugestiva, dizensdo que, se o Lubitsch touch fosse para valer, o próprio Ernst deveria ter a fina estampa de Cary Grant e não ser aquele cara grosso, sempre com um charuto enterrado na boca.  Adorei as histórias sobre o processo criativo de Lubitsch e aproveito para retificar uma informação que sempre repassei errada. No enterro de Lubitsch, quando se encopntraram Billy Wilder e William Wyler, sempre achei que, pelo temperamento de cada um, Wyler tivesse lamentado a perda de Lubitsch e Wilder, a dos filmes, mas foi o contrário. Wilder disse – ‘Nunca mais Lubitsch’ e Wyler acrescentou – ‘Muito pior, nunca  mais os filmes de Lubitsch’. Comprei mais dois livros que recomendo – Playing To the Camera, editado por Bert Cardullo e Garry Geduld, uma coletânea de entrevistas com atores sobre a arte de representar (para teatro e cinema), e outro que foi uma descoberta. Warning Shadows – Home Alone with Classic Cinema é uma coletânea de ensaios de Gary Giddins, que eu nem sabia quem era, sobre lançamentos de DVD e blu-ray. Giddins faz análises muito interessantes de filmes de John Ford, Howard Hawks, Alfred Hitchcock. Não sei se por que muita coisa que ele diz eu também acredito, me encantei com suas análiuses de filmes noir e dos westerns de Anthony Mann, embora o que tenha me chapçado é a sua defesa dos épçicos que Mann fez para Samuel Bronston – El Cid e A Queda do Império Romano. A crítica de El Cid é deslumbrante, como o filme, esmiuçando desde a tragédia de Corneille, cujo diálogo o roteiro reproduz. ‘A moi, comte, deux mots.’ Lia o texto de Giddins e repassavas as cenas na cabeça – Sophia Loren descendo aquela escada circular e a câmera de Robert Krasker seguindo seu movimento; o orgão lancinante de Miklos Rosza na cena em que Rodrigo, atado ao jinete, inicia sua cavalgada imortal. Depois do maior épico do cinema, o Cid, e da derrocada do império romano – com a imagem inesquecível de Lucila/Sophia Loren exortando, na rua, o povo de Roma, enquanto o império é leiloado -, o que mais Mann poderia fazer? Nunca revi Os Heróis de Telemark e, às vezes, fantasio que o filme não é tão ruim quanto me pareceu na época, e Giddins o defende, o que me animou bastante. Falo sobre esses livros todos e ao voltar à redação me esperava um lançamento local – Cinema Japonês na Liberdade, de  Alexandre Kishimoto. Quando cheguei a São Paulo, no final de 1988, não peguei mais as míticas salas do bairro da Liberdade, mas ao folhear o livro e ver aquelas fotos viajei nas minhas lembranças de Porto. Sempre fui carnavaqlesco, vocês sabem, mas em Porto havia uma tradição – na semana do carnaval, o antigo cinema Cacique, na Rua da Praias, apresentava um festival da Toho, do qual era freguês assíduo. De dia, o cinema japonês; de noite, a folia de Momo. Grandes filmes de Akira Kurosawa – Yojimbo e Sanjuro, Céu e Inferno. Já contei, mas reconto, que dois de meus maiores prazeres na recente Berlinasle foram os filmes japoneses – Tokyo Story, Tokyo Monogatari, Era Uma VEz em Tóquio, de Yasujiro Ozu, e o remake de Yoji Yamada, Tokyo Family. Ambos foram comprados para o Brasil pela nova distribuidora de Marcelo Mendes França (ou é França Mendes?) e  Ana Luiza Beraba. Aguardem! Aquele Ozu justifica sozinho o cinema e só mesmo Yamada para ousar refazer um clássico tão grande e ainda por cima dedicá-lo ao autor do original. Esperem e vejam. Não quero ser bíblico, mas os que tiverem fé serão recompensados.