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Lion! Lion! Lion!

Luiz Carlos Merten

26 de fevereiro de 2017 | 08h52

É hoje! Estamos chegando aos finalmentes da 89.ª cerimônia de premiação da Academia de Hollywood. E o Oscar vaio para… De repente me caiou a ficha de que esse Oscar está muito esquisito e, talvez, todo errado. A entrada em cena de Donald Trump, como novo senhor do apocalipse – cujas chaves guarda -, destabilizou a disputa deste ano. Começamos o Oscar 2017 com a polarização entre La La Land e Manchester à Beira-Mar e o estamos terminando entre La La Land (sempre) e Moonlight – Sob a Luz do Luar. Por mais belo que seja o musical demyniano de Damien Chazelle, o drama de Barry Jenkins talvez seja o filme para esses tempos de incerteza e de crise, mas se fosse esse o critério a alemã Maren Ade, que detém o favoritismo na categoria de filme estrangeiro por Toni Erdmann poderia antecipar sua passagem de volta e o Oscar iria para O Apartamento, de Asghar Fahradi, que é o filme certo para o momento. The Salesman/O Vendedor, chamar o filme de O Apartamento foi uma estupidez, sorry. A chave está dentro do filme, na montagem de A Morte do Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller, não só pela discussão ética que desencadeia, mas porque Miller, no fim dos anos 1940, estava criticando, no alvorecer do macarthismo, o sonho americano que Trump agora quer exumar. Que fique claro que todo mundo tem mérito e não se trata de um Oscar de cota racial, mas Viola Davis vai ganhar por coadjuvante num filme do qual é coprotagonista (Fences/Um Limite entre Nós) e, agora, vocês vão cair do cavalo. Vi ontem Lion – Uma Jornada para Casa, de Garth Davis, que eu não faço a menor ideia quem é. É o mais bonito e emocionante filme dessa edição, mas é um filme-ONG. Para a dramaturgia de Lion, todo aquele letreiro explicativo no fim não só é desnecessário como prejudicial. Compromete a integridade artística da obra. Lion é a soma perfeita de La La Land – sem canto e dança – e Moonlight. A vida como deveria ser, e como é, com ganhos e perdas. A questão da identidade. Quem sou eu, quem quero ser? Até os nomes se parecem. Saroo, Sharu, Chiron. E, Deus!, não deveria ter para ninguém. Os prêmios de coadjuvantes teriam de ser de Nicole Kidman e Dev Patel. Já escrevi que é um absurdo que Laura Linney não tenha sido indicada pelo Tom Ford, Animais Noturnos, porque sua única cena no filme, à mesa com a filha – Amy Adams -, é uma master class. Pois vi agora Nicole Kidman em outra cena de mesa. Ela faz a mãe australiana de dois garotos indianos. Dev tem uma explosão, briga à mesa. Nicole é extraordinária, and beyond. A fine master class of acting. E, depois, quando ela esclarece o filho, Saroo, sobre a adoção… Comparem a cena com a de Moonlight em que ‘Black’ reencontra a mãe no asilo. Gabriel Villela brinca comigo. Diz que não tenho sangue, mas celuloide diluído na veia. Deve ser. Como, aos 71 anos e um milhão de filmes, ainda consigo ter essa sensação de que apenas estou descobrindo o cinema? Falta pouco. A disputa do 89.º Oscar continua entre La La Land e Moonlight. Amo os dois. Meu coração torce por La La Land, minha mente por Moonlight – ou será o inverso? Mas, lá no fundo, como guilty pleasure, está Lion. Desde O Garoto, de Charles Chaplin, desde Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, não via um ator mirim como o que faz Saroo pequeno. E o outro, que faz o irmão mais velho, Guddu? Saroo, meio dormindo, o vê partir na noite, mergulhar nas sombras. Aquela imagem já entrou, a ferro e fogo, no meu imaginário. Vai me assombrar para sempre.