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Liga da Justiça é experiência única no cinema de super-heróis. O desequilíbrio faz a força

Luiz Carlos Merten

15 de novembro de 2017 | 11h48

Havia assinado ontem, na cabine, o embargo de crítica a Liga da Justiça. Até as 6 da manhã de hoje estavam vetados os conteúdos críticos sobre o longa da DC. Contava levantar cedo, mas estava cansado e também queria acrescentar antes o post sobre a Seleção Rio. Imagino que outros já tenham escrito sobre a Liga. Lá vou eu! Todo mundo sabe que Joss Whedon dirigiu cenas adicionais de ação, além de assinar o roteiro com Chris Terrio, colaborador de Ben Affleck em Argo. A curiosidade é que o crédito do ‘directed’ é só de Zack Snyder. Faz todo sentido. Superman, o primeiro, com Henry Cavill, era sobre o pai. Batman vs. Superman era sobre a mãe e Liga da Justiça, agora, é sobre a família. Os fãs de comics devem adorar porque o relato é pauleira, com humor, lutas e efeitos espetaculares. Mas o que interessa, para mim, é a forma como Snyder exorciza a perda que sofreu em 2017 – o suicídio da filha, em maio. Como um pai convive com isso, já que superar é impossível? De maio para cá, Zack perdeu as rédeas da produção. No período, ocorreu o estouro de Mulher Maravilha e a ascensão de Gal Gadot em Hollywood. Ela é agora a agregadora da liga e o filme constrói-se, em boa parte, no conceito da perda. De cara, o recorte de jornal informa que Superman está morto – sabíamos – e o próprio cartaz do filme confirma isso. Ninguém salva o mundo sozinho. Batman ao centro, e ao redor dele os super-heróis que se somam ao grupo, incluindo a Mulher Maravilha. Nada de Superman. Todo mundo chora o herói. A namorada, a mãe. Diana/Wonder Woman consola o Batman, dizendo que a culpa não foi dele, etc. Sugiro que as pessoas parem de ler, ou que leiam depois de ver o filme. Eu não tinha lido nada sobre Liga da Justiça, não sabia o que me aguardava. Estava inquieto. Sabia apenas que, de alguma forma, o morto ia ter de voltar. E o filme é sobre perdas, insisto – a perda de Zack e Deborah Snyder? Todo mundo tem perdas na história. Diana, o Flash, Elektron/Átomo, Aquaman. (Confesso que minha maior curiosidade era ele, porque gostei demais do Jason Momoa no remake de Conan, mesmo que o filme não fosse lá essas coisas. Momoa tem uma das melhores cenas, quando se confunde todo ao se declarar a Diana, diálogo que, com certeza, Zack Snyder não escreveu.) Daí a importância de ressuscitar o Superman. Isso já existia ou foi algo insano nascido da mente de um pai desesperado? Como aventura, muda tudo quando Henry Cavill, o grande, entra em cena com seu olhar ferido. O movimento de câmera, em círculo, ao redor da cabeça dele, acompanhando seu olhar, é algo que nunca se viu no cinema dos comics. Eu nunca vi, pelo menos. Me lembro de algo vagamente parecido num filme de Marco Vicario dos anos 1960 – As Horas Nuas. A câmera fazia esse movimento ao redor da cabeça de Rossana Podestà, mulher do diretor, mas ela não a seguia com o o0lhar. E era um filme pequeno, intimista. Autoralmente, Liga da Justiça é desequilibrado, meio frankenstein. Mas é isso que o torna mais fascinante. E o filme tem detalhes muito loucos – por toda eternidade, Superman deveria levar aquela foto do pai, Kevin Costner pescando? Como sempre, o cinema de Zack Snyder se constrói nos mitos – Atlântida, a retomada das amazonas, o sinistro Lobo das Estepes. A força do mito já confere uma dimensão grave. Mas a aventura vira tragédia – já virava antes da perda que o diretor sofreu na vida. O filme pode ser curtido como blockbuster, é quase tão bom quanto Guardiões 1 e 2. Como obra de autor, apesar das circunstâncias – muita gente meteu a mão -, e com todo respeito por James Gunn, é melhor. A própria ressurreição – Zack Snyder realizou um dos melhores filmes de mortos vivos. Madrugada dos Mortos, os zumbis tentando arrombar o shopping – a América consumista? Tudo fecha, tudo faz sentido.

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