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Libido à solta

Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2015 | 13h31

TIRADENTES – Essa mostra anda muito arretada. No fim de semana, uma sessão de curtas apresentou um programa muito ousada, incluindo dois curtas em que o sexo era mostrado de dois ângulos. Action Painting, números 1 e 2, de Krefer e Turca. Uma mulher rasgava as costas do parceiro com suas unhas longas (afiadas?), enquanto gozava alucinadamente. Na etapa seguinte, a mulher ficava de quatro e ele despejava cera fervente de uma vela em suas costas. Os filmes não tinham som. Teriam sido uma gritaria dos infernos. E passaram à tarde,. com crianças na plateia. Cléber Eduardo me contou uma ótima – uma mãe disse para o filho ‘Fecha os olhos’, ele retrucou ‘Estou no cinema para ver’. Ontem, começou a Mostra Aurora. Mais sexo. O Animal Sonhado é obra de um coletivo cearense. Seis jovens – quatro rapazes e duas garotas – que não se preocuparam em individualizar seus segmentos no debate realizado há pouco. São seis episódios, cada um tinha seu diretor, mas os outros cinco permaneciam no set como assistentes, opinando, participando. Ponho os nomes para constar, sem fazer a menor ideia de quem dirigiu o quê (e olhem que fui ao debate para tentar descobrir). Breno Baptista, Luciana Vieira, Rodrigo Fernandes, Samuel Brasileiro, Ticiana Augusto Lima, Victor Costa Lopes. Pela conversa, ficou claro que a ideia era articular os episódios numa narrativa autoral (única?). O filme, feito a troco de nada, só foi possível numa política de afetos, todo mundo pegando junto etc e tal. Até aí, tudo bem. É normal em Tiradentes. Mas e o filme? O Animal Sonhado? O mediador da mesa, que não deve ter entendido que eu queria fazer uma pergunta e não me deu a palavra, comparou O Animal Sonhado a Pier-Paolo Pasolini. Seria um Decameron cearense. Eu pensei mais em Stanley Kubrick, De Olhos bem Fechados. O sexo como coito interrompido. E achei interessante, curioso mesmo, que o sexo gay que abre o filme seja o único, digamos, prazeroso. Há toda uma história que chega a compor uma dramaturgia. Dois garotos, eles correm de uma suposta situação de perigo. Extenuados, caem nos braços um do outro e, ao dar-se conta, afastam-se com veemência (violência?). Terminam por atracar-se, de novo, e rola. Os dois garotos iam para uma festa. Não aparecem. Acompanhamos outros dois na festa. Um é tímido, e quando se solta dançando talvez seja gay. Assim parece aos olhos da garota que dança com ele. O outro carrega a amiga dela para o terraço, e rola, mas ele conta que frequentava aquele espaço quando criança e havia a história de um monstro que lá habitava. No final do sexo, o garoto olha para a parceira com estranhamento, como se visse nela o tal monstro. Será que fui só eu que vi isso? Enfim, os diretores fazem os filmes e a gente os refaz no inconsciente. O terceiro segmento é de uma garota na academia. Ela tem prazer solitário, orgasmo com sua ginástica. Quando sai com um cara, ele goza rápido demais e a deixa insatisfeita. O quarto é sobre incesto, o pai que deseja a própria filha. Num certo sentido, é o melhor resolvido como narrativa e o único que interioriza o personagem (o da garota da academia, também, um pouco). Por mais ‘monstruoso’ que pareça esse pai, ele é humano. Sua longa cena sentado no sofá onde observou a filha com o namorado cria espaço para que o espectador preencha o vazio de sua construção dramática. Ele nada diz, nada faz. Nós pensamos, nós fazemos,  o público. São os melhores episódios, e vão introduzindo, progressivamente, uma espécie de ruído no sexo. Uma dificuldade de relacionamento. Após o encontro dos gays, os segmentos vão virando desencontros e terminam com um episódio de sexo grupal, uma garota com vários caras, em que é difícil, moralismos à parte, visualizar qualquer ideia de harmonia, só o desejo bruto. Aquele cara com uma genitália avantajada dominando todas as cenas. Achei curiosa essa questão da homossexualidade no filme.Vai na contracorrente dos Felicianos, e a homofobia ainda corre solta no Brasil, apesar dos avanços. Achei curioso esse encontro/desencontro dos corpos, muito mais que as particularidades da produção. Assim como a Mostra de Tiradentes, como um todo, discute o lugar do cinema (no mundo, no imaginário da gente), o filme cearense levanta uma questão específica. Como filmar o sexo? Não creio que tenha gostado de O Animal Sonhado. Vi-o mais como rascunho que como ‘obra’. Mas fiquei suficientemente intrigado para ainda estar pensando no filme. Não é pouca coisa.