As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Festival do Rio (4)/Libido à solta. E todo mundo pega em armas

Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2015 | 11h35

RIO – Combinaram-se várias coisas para que deixasse de postar por dois ou três dias. Agora, estou retomando. Espero manter a regularidade. Domingo à noite tive meu primeiro choque na mostra competitiva da Première Brasil. Gosto bastante do cinema de Gabriel Mascaro, que tenho acompanhado na Mostra de Tiradentes. Filmes como Um Lugar ao Sol e Doméstica, que ele fez montando material (imagens) que não captou. E aí veio Ventos de Agosto, que me encantou. E agora Boi Neon. Mascaro invade com sua câmera o universo das vaquejadas. Juliano Cazarré integra grupo que prepara o gado para as exibições na arena. Vive na estrada, dividindo o espaço no caminhão com os bois e os companheiros de jornada. Não digo nenhuma novidade ao escrever que o cinema feito no Recife é predominantemente masculino. E os caras são arretados, adoram uma p…ria. Não é nenhum juízo de valor. É constatação. Mascaro introduziu na sua ficção um documentário sobre a genitália de Juliano Cazarré, Em repouso, nu frontal, em ação, em cenas de sexo explícito (com uma grávida). É uma pena que o filme de Mascaro não tenha ficado pronto ou não tenha sido submetido à comissão de seleção de Cannes. O maior festival do mundo adora um escândalo, e sexo explícito não nega fogo na Croisette. Sou mais o Boi Neon que o Love, de Gaspar Noë, ambos distribuídos por Jean Thomas, da Imovision. E o filme tem intensidade para ultrapassar o escândalo. Não por acaso foi premiado em Veneza e Toronto. Não apenas o ambiente das vaquejadas me pareceu forte e novo, como é uma sacada fazer com que Cazarré, vigoroso como é seu personagem, seja um criador de moda no pólo têxtil que se cria no sertão. No grupo há uma mulher com a filha. A mãe compra calcinhas. São de p…, diz a filha, o que provoca uma irada reação da mãe. Embora crente, a personagem de Adriana Esteves em Mundo Cão, de Marcos Jorge, também vende calcinhas. No instituto de beleza, uma mulher que pareceria a mais improvável das clientes – quem vê cara não vê b…, sorry – quer calcinhas bem cavadas, para deixar o velho dela doidão. A libido anda solta no Festival do Rio, mesmo que esse não seja o tema de Mundo Cão. O filme de Marcos Jorge é sobre o cara da carrocinha (Babu Santana) que caça o rothweiller de Lázaro Ramos, o bicho é sacrificado e Lázaro, criando um personagem brutal, vinga-se sequestrando o filho de Babu. Existem duas discussões muito interessantes sobre ‘leis’. Babu diz a Lázaro que a lei autoriza matar o animal se o dono não aparecer em três dias. Na delegacia, o policial informa Adriana de que são necessárias 24 horas para formalizar o desaparecimento. Antes disso, a polícia não faz nada. No mundo cão, não importa o lado, todo mundo pega em armas.