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Liberdade em discussão

Luiz Carlos Merten

29 de julho de 2013 | 09h57

Há, ou havia, um ciclo de cinema e literatura n o Cine Olido. Esqueci-me de verificar se já terminou. Revi ontem Macunaíma. Já disse e repito que prefiro a vertente mineira à tropicalista na obra de Joaquim Pedro de Andrade. Mesmo sendo ‘carioca’, o curta Couro de Gato é mineiro pelo intimismo, como O Padre e a Moça, e são os ‘Joaquins’ do meu coração, por mais que o rigor de Os Inconfidentes e a subversão de Vereda Tropical, o episódio de Contos Eróticos, me deem conto do grande talento do autor. Acho Macunaíma meio truncado, mas tenho de confessar que ri ontem mais do que em qualquer das vezes anteriores em que tenha visto o filme. Do Centrão fui para a Paulista, para tomar sopa no festival do Subito e voltei para casa. Queria assistir a alguma das fitas do Festival Judaico, que já recebi – e estou nos cascos por uns quatro ou cinco filmes da seleção -, mas terminei vendo,. na TV, Escritores da Liberdade, com Hilary Swank. Até hoje não sei se gosto do filme de Richard LaGravenese, mas gosto de vê-lo e já perdi a conta das vezes em que acompanhei a história da professora que descobre sua vocação ao lecionar uma turma de alunos que espelham as contradições da ‘América’. Os filmes sobre professores que colocam nos eixos alunos baderneiros se tornaram uma tendência específica de Hollywood, e alguns deles viraram clássicos, como Sementes da Violência, de Richard Brooks, e Ao Mestre com Carinho, de James Clavell, em que Sidney Poitier, baderneiro no anterior, vira o ‘teacher’. E tenho um carinho especial por Subindo por Onde se Desce, de Robert Mulligan, com Sandy Dennis. Aliás, Mulligan é um diretor que, em seus altos e baixos, me merece todo respeito. Gosto de seus filmes ‘sociais’, tipo O Sol É para Todos e O Preço do Prazer, acho À Procura do Destino, Inside Daisy Clover, o mais injustiçado dos filmes sobre os bastidores de Hollywood, mas são seus filmes de gêneros que me deixam chapado. Quem, poderia prever que um diretor tão urbano fosse fazer o western A Noite da Emboscada, The Stalking Moon, com Gregory Peck e Eva-Marie Saint, praticamente emendando esse grande filme com o romântico Houve Uma Vez Um Verão, Summer of 42, e o perturbador A Inocente Face do Terror, The Other, que adaptou do livro de Tom Tryon, sim, o ‘cardeal’ de Otto Preminger. De volta a Escritores, a professorinha chega cheia de boa vontade e se choca com a hostilidade da turma, mas não se intimida e eu gosto de ver como ela consegue vencer as resistências dos alunos, mas como eles, também, descobrem, por meio dela, uma forma de resistir à miséria do mundo em que vivem. Há uma guerra nas ruas da América – coreanos, chicanos, negros, os brancos da maioria silenciosa. E todos descobrem o que os une, não o que os separa. Uma das ferramentas de que Hilary se vale é a história. Ela ‘introduz’ a seus alunos o Holocausto. Faz com que descubram Anne Frank e, numa cena, a velha judia que, 60 anos antes, ainda garota, tentou ajudar a jovem Anna, vem contar sua história à turma. Depois de ouvir o relato, um dos alunos, que vive nessa outra ‘guerra’, se levanta e diz que Miep Gies é seu ídolo, sua heroína, e a própria Hermine ‘Miep’, que guardou o diário de Anne Frank, responde que heróis são eles, que ela fez apenas o que era ético e tinha de fazer. A frase poderia ser de Clark Kent, Henry Cavill, em O Homem de Aço. Os superpoderes são uma coisa de Krypton, não dependem dele (e, por muito tempo, foram até uma maldição). Lições de caráter, de ética, e o Macunaíma de Mário de Andrade é o oposto, o herói sem caráter. Mas como age um herói sem, caráter e que lições podemos tirar de suas aventuras/desventuras no mundo? O cinema é uma coisa maravilhosa. Podemos fazer pontes entre filmes disparatados, fazer os ‘nossos’ filmes. E chega,. tenho cabine daqui a pouco.

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