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Liam Neeson a toda velocidade

Luiz Carlos Merten

04 de março de 2014 | 14h58

Detestei aquele terror de Jaume Collet-Serra sobre a órfã que, na verdade, é uma adulta que sofre de ditstúrbio de crescimento e sai matando. Mas gosto ou pelo menos me divirto com seus filmes de ação com Liam Neeson. Para quem adora a teoria de autor, Desconhecido e Sem Escalas parecem o mesmo filme e até me pergunto se não são. No primeiro, Liam Neeson faz um médico que sofre acidente de carro e, ao voltar do coma, descobre que outro usurpou seu lugar, com a convivência da mulher, que alega não conhecê-lo. Em Sem Escalas, ele faz um xerife do ar que é chantageado durante o voo. Alguém a bordo ameaça matar um passageiro a cada 20 minutos, se uma fortuna não for depositada numa conta que se revela pertencer a… Liam Neeson. De repente, o caso vira sequestro, o herói é vendido na internet como um maluco homicida que ameaça explodir a aeronave. Escoltado por jatos militares, o avião será derrubado – por que e por quem? Em  ambos os casos, as questões da identidade e da paranoia tornam-se essenciais. A situação kafkiana do primeiro convence mais, porque o desenho do personagem de Sem Escalas é mais convencional. O bêbado em busca de redenção, a história da fita que pertenceu à filha, a garotinha a bordo, o mistério de Julianne Moore – afinal, quem é essa mulher? -, tudo segue muito o figurino da causa & efeito, mas os atores são bons e ajudam a segurar a onda. Curioso para saber a reação da ‘crítica’ ao filme, resolvi pesquisar na rede. O que mais li é que o filme não segura a premissa crítica, mas é bom divertimento. A tal premissa seria a paranoia e o divertimento… Pelo currículo de Collet-Serra, não tenho dúvida de que o que lhe interessa é o divertimento e, portanto, a pretensão de ser alguma coisa mais está na cabeça de quem vê. Não duvido que o diretor tenha pensado nessas coisas todas, mas foi num esquema muito funcional, para definir o caráter do personagem e o desencadear de suas ações, como fazem 99% dos filmes de ação. Estou contando algumas novidade? O problema é ficar inventando defeitos – direção exagerada, roteiro inverossímil etc – para recuar sobre as próprias pegadas, depois de admitir que o filme é bom, como muitos fizeram. Cá comigo, tenho de admitir que o sucesso de Liam Neeson como herói de ação deve-se ao fato de ele criar, com convicção, personagens vulneráveis, e não super-homens. Bêbado, desmemoriado, Neeson precisa sempre superar seus limites para resgatar uma filha ou um avião. O público adora isso e ele, finalmente, virou um astro bancável pelos padrões de Hollywood.

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