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L’Étouffe des Héros, Os Eleitos pelo próprio Philip Kaufman

Luiz Carlos Merten

06 de março de 2020 | 06h42

PARIS – Vivi, experimentei, tive (?) – nunca sei qual é o verbo -, ontem às noite, minhas epifania parisiense. Sob frio e chuva, fui à Cinemateca Francesa para ver, no 8.º Festival Internacional do Filme Restaurado, Philip Kaufman apresentar a versão restaurada de Os Eleitos/The Right Stuff. Na França, chama-se L”Étouffe des Héros. Já conhecia a Salle Jean Epstein, e foi nela que revi o Richard Brooks, Os Profissionais, na quarta à tarde. Ontem, conheci a sala grande, que leva o nome de Henri Langlois, e estava lotada. Ele contou que fez o filme num hangar, em São Francisco, onde mora, para ficar longe da pressão do estúdio, se filmasse na Warner, em Culver City. Já tinha seu elenco formado, menos o ator psara fazer Chuck Yeager. Um dia, foi com a mulher a uma audição de poesia, ouviu-o falar e ela disse – ‘É ele!’ Kaufman apresentou Shepard a Yeager e os dois se odiaram instantaneamente. Criou-se um constrangimento. Shepard disse que tinha de ir embora para resolver um problema com a caminhoneta. Yeager perguntou qual truck era, começaram a conversar sobre motores e se entenderam. Quem conhece o teatro de Shepard, disse Kaufman, sabe a importância da figura do pai, mesmo ausente. Yeager costumava ir ao set, nunca de uniforme e certamente nunca com as medalhas que ganhou como piloto da Força Aérea. Gostava de usar seu velho chapéu de caubói. E virou para Shepard o pai que ele não teve. O filme é sobre a ‘coisa’ (stuff) que faz os heróis. A coisa certa. E Kaufman arrematou – o filme é sobre como os caubóis conquistaram o espaço. (Anos depois, Clint fez Os Cowboys do Espaço, sobre velhos caubóis na corrida espacial, mas essa é outra história.) E veio o filme. Kaufman confessou que amava o livro-reportagem de Tom Wolfe, mas não conseguia ver uma história ali dentro. Um amigo, futuro diretor do Festival de Telluride, apresentou-lhe Jean-Luc Godard. Conversaram sobre carreira, projetos. Kaufman manifestou sua dúvida sobre The Right Stuff e Godard, na mesma hora, disse – ‘Eu faço, do meu jeito.’ Foi o que o decidiu. Se não é verdadeira, a história é ótima. Print the legend – John Ford, O Homem Que Matou o Facínora. Justamente Ford. Kaufman conseguiu construir uma história, mas seu filme é principalmente um embate entre a epopeia do grupo – os sete pilotos, mais tarde astronautas, que integram o projeto Mercury – e a tragédia do individualista (Yeager), alijado do programa, e não há nada mais fordiano que isso. Sempre amei a cena em que Miss Sally Rand faz seu número, dançando nua entre plumas, ao som de Clair de Lune, e, em paralelo, transpondo as nuvens, Chuck Yeager voa mais alto que qualquer homem já foi, num jato de combate. As trocas de olhares, a cumplicidade entre os astronautas. A beleza e juventude de Ed Harris, Dennis Quaid e os outros. E Sam Shepard, com sua goma de mascar. Esses homens e suas mulheres, o carinho imenso de Harris/John Glenn pela mulher que sofre de uma disfunção da fluência da fala – é gaga. Sempre gostei muito de Os Eleitos, mas ontem – o filme entrou pela madrugada – amei. Foi a epifania. Saí pela noite, um frio de rachar os ossos. Peguei o metrô, mas ao chegar ao Chatelet, para a mudança de trem, a estação estava fechada. Saí de novo para a noite, com muito vento próximo ao Sena, até conseguir um táxi, e chorando. Há um demônio interno que consome Yeager e ele precisa domar. Eu, às vezes, me sinto assim. Com todos os momento de euforia, há uma tristeza, à medida que fico mais velho, que ameaça me consumir. O cinema, mais que o sexo, tem sido a minha catedral.

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