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Les immanquables

Luiz Carlos Merten

30 de maio de 2016 | 08h43

Não vou fazer um Parada! (3) porque já foi. Passou, com seus trios elétricos e tudo. Mas é só para ver como funciona a lembrança. Disse que ia fazer, nos posts anteriores, uma lista de filmes LGBT sem pesquisa nenhuma. Ia colocar aqueles de que fosse me lembrando. Faltaram dois, e talvez sejam os filmes por excelência que abordam a questão transgênero. (Mas se é questão, para concordar, não tem de ser transgênere?) Todas as aparências enganam em Quanto Mais Quente Melhor, o clássico de Billy Wilder votado numa pesquisa do AFI, American Film Institute, como a melhor comédia de todos os tempos. Para escapar da morte, Tony Curtis e Jack Lemmon vestem-se como mulheres e vão parar na orquestra de senhoritas em que Marilyn Monroe toca banjo. Ficam todas ‘amigas’, mas o Curtis encarna uma persona de milionário para seduzir a garota. Um milionário de verdade (Joe Brown) toma-se de amores pela persona feminina de Lemmon e, quando Daphne lhe diz que é homem, ele retruca com a frase imortal – “Ninguém é perfeito!” Vejam como são as coisas. Nos últimos dias havia escrito sobre Some Like It Hot (título original) por conta de um texto sobre os 90 anos de Marilyn (no dia 1º). Mesmo assim, esqueci-me do filme. O outro é de Almodóvar. Cheguei em Paris e havia, no Les Fauvettes, um ciclo chamado Les Immanquables de Pedro Almodóvar. Os Imperdíveis de Pedro. Qualquer um poderia entrar numa lista LGBT, mas vou agora de A Pele Que Habito. O cirurgião Antônio Banderas vinga-se do homem que considera responsável pela morte de sua filha e faz nele uma cirurgia de mudança de sexo. Transforma-o em mulher, por quem se apaixona. E o cara só quer voltar para casa. Mamá, soy yo! Tem gente que não gosta de La Piel Que Habito nem do filme que foi sua matriz – Les Yeux sans Visage, de Georges Franju. Eu gosto (muito). E, a proposito, gostei também de Julieta, o novo Almodóvar, que concorreu em Cannes e não levou nada. Não discuto a coerência do júri de George Miller e gosto de alguns de seus prêmios (especialmente o Grand Prix para Xavier Dolan, com o admirável Juste la Fin du Monde, que os coleguinhas brasileiros, quase sem exceção, adiaram). Mas a lista dos esquecidos deste ano no Palmarès (Aquarius, Julieta, Elle, o próprio Toni Erdmann, que era o favorito da crítica) é impressionante. E nessa até eu me esqueci, na minha lista LGBT, dos immanquables Wilder e Almodóvar.