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Lembrar para viver, viver para lembrar. Antunes Filho

Luiz Carlos Merten

03 de maio de 2019 | 13h49

Passei a manhã na rua – médicos. Agora, é inevitável. Não tem saída para o problema da minha perna. A prótese (de joelho) está infectada. Vou ter de trocar, um processo que alguns me dizem doloroso, outros, só complicado, ou delicado, mas todos, de qualquer maneira, me falam numa hospitalização longa, um mês ou mais. Bye-bye, Cannes? Muito provavelmente. Confesso que estou meio atordoado e foi nesse quadro que descobri hoje – às sextas, compro a Folha, por causa do Guia – a morte de Antunes Filho. Câncer de pulmão, 89 anos. Um monumento do teatro brasileiro. Monumento? Não sou louco de contestar a importância de Antunes como formador de atores e dramaturgos no CPT, o Centro de Pesquisa Teatral, mas de tudo o que vi dele, desde que o teatro se estabeleceu em minha vida, por meio de Dib Carneiro, pouca coisa me entusiasmou. Macunaíma, Veredas da Salvação, Medeia, algum Prê-à-Porter, um pouco Policarpo Quaresma. Detestei Blanche, e achei o espetáculo tão desrespeitoso com a poesia e o realismo psicológico de Tennessee Williams que saí no meio – a única vez que isso ocorreu na minha vida. Minto, também saí no meio de um musical que nem lembro o nome, coisa horrorosa. Gostei das cadeiras como solução de mise-en-scène em Eu Estava em Minha Casa e Esperava Que a Chuva Passasse. Meu último Antunes Filho, a que assisti sozinho. Um Jean-Luc Lagarce descarnado e que retomava, pelo ângulo do olhar feminino, o filho pródigo de outra peça do autor, filmada por Xavier Dolan, É Apenas o Fim do Mundo. Se fizerem uma pesquisa no blog, vão encontrar o post. Eu não faço, mas me lembro de haver escrito alguma coisa sobre os temas da espera e do lembrar para viver, viver para lembrar, que mexem comigo. Saí daquele Antunes mexido. Era um digno homem de esquerda e um artista democrático. E penso que não é só o cerco desse governo de trogloditas que está se fechando, asfixiando a cultura, ameaçando a filosofia, a sociologia e a liberdade, com esse conceito esdrúxulo de que democracia é um regime utilitário – serve para nós, nossos amigos, mas não nossos inimigos (digo os amigos e inimigos ‘deles’). Existem novos diretores talentosos de teatro, mas nossos grandes eram o Antunes, que agora se foi, o Zé Celso, que respeito – sua participação em Tchekhov É Um Cogumelo é maravilhosa – e os meus preferidos, Eduardo Tolentino e Gabriel Villela. Todos já de uma certa idade, enfrentando a erosão do tempo – que eu enfrento. Tolentino é o garoto dessa turma. Gabriel é meu tótem, o maior de todos. Não importa a peça, o autor é ele, que pensa o Brasil e o mundo com base no seu barroquismo mineiro e faz de cada movimento cênico uma afirmação de humanidade e inteligência. Gabriel, que além de tudo era prolífico, montou apenas uma peça no ano passado. Não sei como terminar esse post. Vida longa aos nossos grandes que sobrevivem? Vida longa, sim, mas obra abundante. Grandes artistas calados não produzem as obras-primas de que são capazes.