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Le vent se lève

Luiz Carlos Merten

26 de fevereiro de 2014 | 09h16

Pode ser um defeito maior que os outros que já tenho, mas, em geral, não me identifico muito com o imaginário do animador japonês Hayao Miyazaki. A Viagem, de Chihiro, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e foi, em grande parte, responsável pela consagração internacional do artista, me deixa de mármore. Não consigo entrar no seu bestiário. Falo no geral, porque, no pontual, gostei bastante de Castelo no Ar e ontem pirei com Vidas ao Vento. Embora o filme tenha passado na Mostra e já estivesse em cartaz em Paris, preferi ver o RoboCop e assistir ao que a capital francesa me oferecia de exposições e retrospectivas. Ontem, finalmente, encarei – acho muito engraçado quando as pessoas escrevem encarar de frente, como se desse para encarar de lado, ou de costas (quem sabe pelo reflexo no espelho?) – o filme que concorre ao Oscar da categoria. Antes da sessão, Paula Ferraz, da Califórnia, disse que o filme só vai ser lançado com cópias legendadas, que não é uma animação infantil etc. Nunca entrevistei Miyazaki, mas é um autor que me interessa, até por ser um dos ídolos da turma da Pixar, à frente John Lasseter. Já li Miyazaki dizendo que chegou a desistir de projetos que lhe eram caros porque achou que não chegariam ao público, e ele faz os filmes – fazia, diz que Vidas ao Vento é sua despedida do cinema – para ser visto. Mas ele também diz que seu espectador ideal é um garoto (nunca o ouvi dizer uma garota) de 10 ou 14 anos, e que se surpreende com o sucesso de seus filmes junto ao público na faixa dos 40. Nem ele sabe explicar quando Vidas ao Vento começou a nascer, mas com certeza o projeto sempre o acompanhou, porque é filho e sobrinho de aeronautas. Seus primeiros desenhos eram reproduções das peças e aeronaves que via na empresa familiar e seu único filme ‘adulto’, Porco Rosso, trata de um piloto de hidro-avião com cara de animal. Surgiu assim, a história do garoto que sonha construir aviões, e o sonho dele se funde com o do mítico designer italiano Giovanni Battista Caproni. O herói sonha o sonho de Caproni – construir aviões de passageiros -, mas a Marinha imperial quer aviões de guerra e boa parte do filme trata do embate interior desse poetas humanista que constrói aviões de combate, para pilotos que serão tragados pelo céu e nunca voltarão. Miyazaki inspirou-se no criador do avião de caça Zero, mas faz só meia dedicatória a Jirô Horikushi. A outra metade da dedicatória é para Tatsuo Hori, tradutor de Jean Cocteau e amante de Proust, Gide e Mauriac, autor do livro autobiográfico que dá título ao filme, retirado de um verso de um poema de Paul Valéry em Cemitério Marinho. Le vent se lève/et nous devons tenter de vivre. O livro de Hori reconstitui a morte da mulher que ele amava, vítima de tuberculose. Miyazaki conta assim duas histórias – a de Jirô para dominar a máquina (e o vento) e a de sua amada Naoko, que também poderia ser chamada de ‘amante do vento’. Puta melodrama. É o vento que os aproxima quando, no trem, ela resgata o chapéu dele, que o vento levou. Como se filma o vento? Já era a questão de um filme mineiro muito interessante lá em Tiradentes. O episódio da tuberculose, o sanatório, faz referência direta à Montanha Mágica de Thomas Mann, e eu confesso que chorei quase a ponto de me desidratar. É, para mim, o melhor Miyazaki (de longe), mas me intriga muito uma coisa que não entendo muito bem. Os humanos do autor – as crianças, os adultos – não têm olhos puxados. São, pelo contrário, arredondados, e eu me pergunto se Miyazaki, tão interessado em ser visto, não cria essas figuras já pensando na aceitação pelo mercado internacional? Comentei isso ontem com meu colega Zanin no final da sessão, e ele até observou que já ouviu isso a propósito dos mangás. Quem sabe alguém possui a informação que me falta, e explica? Eu só posso dizer que amei. Cheguei a brincar – esse caras pode ser bom, mas não é conciso. Mais de duas horas! Isso foi antes. O vento levou o tempo, e eu poderia ter ficado mais duas horas, emocionado, numa boa. As lágrimas que borram o texto, o sangue na tosse da tísica. Miyazaki fez, na animação, um filme físico sobre o amor. Um pouco como François Truffaut, nas Duas Inglesas.

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