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Le ‘raggazze’ Comencini, Cristina e Francesca. E as mulheres no mercado hetero-capitalista

Luiz Carlos Merten

26 de novembro de 2017 | 11h38

Completei ontem meu ciclo das Comencini. Finalmente! Havia visto Algo de Novo, da Cristina, no fim de semana passado, mas tive a maior dificuldade para encaixar o Histórias de Amor Que não Pertencem a Este Mundo, da Francesca. Caraca! Tirando blockbusters, virou a maior dificuldade encontrar filmes em sessões contínuas. Alguns filmes passam num horário, e em geral estapafúrdio. Outros, em dois, em geral a primeira sessão e a última. Ontem, para complicar, me confundi e tentei ver Boneco de Neve, mas fui na sala errada, no horário que queria. Socorro! Cristina e Francesca são filhas de Luigi Comencini, que tem a reputação de ter sido um dos grandes da comédia italiana, mas eu meio que duvido – não de que ele tenha sido grande, mas se foi caracteristicamente um autor de comédias. Sem dúvida que ri muito com Mulheres Perigosas, mais que com a série Pão, Amor e…, mas a par dos filmes sobre crianças e adolescentes – L’Incompresso/Quando o Amor É Cruel, As Primeiras Experiências de Casanova, muito melhor que a misantrópica versão de Federico Fellini, e Cuore, adaptado de Edmondo De Amicis -, os ‘meus’ filmes de Comencini são A Garota de Bube, o crudelíssimo Semeando a Ilusão/Lo Scopone Scientifico, que tem aquele final, Un Ragazzo di Calabria e o operístico La Bohème, com La Hendricks, Barbara, nella parte di Mimi. Gostei de ter visto os filmes das Comencini, e gostei principalmente por causa do idioma. É tão raro ouvirmos filmes falados em italiano. Cristina Comencini, a mais velha, tem 61 anos; Francesca, 56. Os filmes delas são, entre outras coisas, sobre as dificuldades de mulheres di una certa età no mercado. Algo Novo é sobre duas coroas, Paola Cortellesi e Micaela Ramazzotti, que compartilham um amante jovem – de 19 anos! Uma fantasia, e divertida, porque as atrizes são ótimas. Micaela é casada com Paolo Virzi e estrelou dois filmes do marido, La Prima Cosa Bella e Pazza di Gioia, Loucas de Alegria, que me encanta. Histórias de Amor é sobre uma mulher madura obcecada pelo ex. No final, reencontram-se e eu, que amo o desfecho de Clamor do Sexo, de Elia Kazan, acho que Francesca logrou algo de novo – ela, sim – ao alternar o diálogo da dupla com pensamentos internos, muito interessante. Numa cena, a protagonista e a amiga vão a uma aula de economia. A mulher no mercado hetero-capitalista. Uma de 44 anos, atribuindo pesos a filhos, divórcio, etc, tem 67 para esse mercado e, portanto, não interessa mais. Finita. Estamos falando de oportunidades – profissionais e sexuais – e a diretora observa que ela teria mais chance no mercado lesbio-capitalista, que não é tão discriminador. Tenho de admitir que não conheço muito a obra das Comencini, mas sei duas ou três coisas sobre Francesca. Em 2001, realizou-se em Porto Alegre o 1.º Fórum Mundial Social, que foi uma experiência maravilhosa. Projetou a cidade no mundo. Em 2002 ou 3, assisti em Paris ao documentário Un Alto Mondo è Possibile, Um Outro Mundo é Possível, uma experiência coletiva, muito rica, na qual Francesca era uma das diretoras. (O conceito do projeto era de Francesco Maselli, um autor dos anos 1950 e 60 que foi cria do neo-realismo.) Confesso que, durante muito tempo, sempre que ia a Porto, visitava o Parque Marinha, onde os integrantes do Fórum deixaram sua marca. Gente de todo o mundo gravou na pedra, no cimento, no bronze alguma palavra de esperança, nessa louca expectativa de que um outro mundo fosse possível – seja – nessa era de economias liberais. Não sei, sinceramente, se aquilo ainda existe ou se foi destruído no novo traçado do parque, para facilitar o acesso ao Beira-Rio, na Copa. Talvez me engane, mas acho que vi somente mais um filme de Francesca, Le Parole di Mio Padre, que até pensei que fosse sobre o pai dela, Luigi, mas era uma libre adaptação de dois capítulos de A Consciência de Zeno, de Italo Svevo. Gostei de ver os filmes das Comencini, e mais ainda o estranhíssimo Histórias de Amor, com a dupla Lucia Mascino e Thomas Trabacchi. Gostei demais de ambos. Ela, intensa, ele, com seu charme viril. Fui pesquisar e encontrei que ambos possuem extensas, e prolíficas, carreiras na TV italiana.

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