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Laura, para sempre esposamasnte

Luiz Carlos Merten

22 de junho de 2015 | 23h27

Já estava saindo do jornal, depois de fazer meu material do dia, quando chegou a notícia da morte de Laura Antonelli. A esposamante! Existem histórias que me perturbam muito e a de Laura é uma delas. Uma das mais belas e sexys mulheres do mundo, ela quis aprimorar a natureza e fez uma plástica que não deu certo. Fez outras para corrigir. Piorou. A bela que virou fera. Não sei se para conviver com o horror, ou se o problema já vinha de antes, Laura tornou-se dependente de drogas. A polícia apreendeu com ela, já desfigurada, uma alta quantidade (36 gramos) de cocaína. Laura foi indiciada, não como dependente, mas como traficante. Foi julgada e condenada. Não consigo imaginar como terá sido segurar todos os olhares de curiosidade, escárnio ou pena que lhe foram dirigidos durante o julgamento. Isso foi em 1991. Ela passou a década inteira brigando com a Justiça. Perdeu o que não tinha mais. Foi inocentada em 2000, mas sua vida já havia virado um inferno. Um amigo pleiteou ao ministério italiano da Cultura que a ajudasse com uma pensão. Ela ficou ofendida. Pediu – ‘Esqueçam-me!’. E foi viver na pequena cidade em que morreu, hoje para nós, ontem na Itália, aos 73 anos. Penso em Laura Antonelli e as imagens se sucedem. Malícia, O Inocente, Esposamante. E os diretores – Salvatore Samperi, Luchino Visconti, Marco Vicario. No filme do último, ela começa como a mulher histérica de Marcello Mastroianni. Por uma série de circunstâncias, o marido tem de desaparecer e assiste, de longe, à transformação da mulher. Possuído não pelo ciúme, mas pelo desejo da nova mulher, ele reaparece e faz da esposa rejeitada a amante triunfante. Em 1978, em pleno feminismo, o filme provocou polêmica. Para se liberar, a mulher precisava (como ela) refazer a trajetória do homem? A mesma questão foi levantada, a seguir, por Ridley Scott com Thelma e Louise, mas, com o perdão de Susan Sarandon e Geena Davis, Laura era mais bela, mais sensual, mais gostosa. Como a Fedora de Billy Wilder, ela viveu os últimos 20 anos reclusa. Não sei, sinceramente, se alguma vez tentou se matar nem se, após todo o desespero, experimentou alguma paz. Quero crer que sim. Ninguém merece viver duas décadas em choque consigo mesmo(a). Nós, que a amávamos tanto, não tivemos de conviver com sua miséria. O cinema e o DVD nos devolvem a toda hora a Laura belíssima. A questão permanece insolúvel – por que essas coisas ocorrem? Será carma?