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Latino América!

Luiz Carlos Merten

29 de julho de 2017 | 12h51

Há anos o Cine Ceará tenta me incluir no rol de seus convidados. Nada contra, mas quem cobre o festival para o jornal é meu colega Luiz Zanin. Não acho muito ético que o evento arque com as despesas de dois jornalistas do mesmo veículo. Mas neste ano, especificamente, fiquei balançado. O foco no Chile, com direito a retrospectivas de Alejandro Jodorowski e Raul Ruiz, antes de virar Raoul (na França), mexeram comigo. Nunca vi Fando y Liz, e certamente gostaria de rever Três Tristes Tigres. Já contei muitas vezes como Doris, minha ex, e eu viajávamos pela América Latina, por volta de 1970. Uruguai, Argentina, Bolívia, Peru – e Chile, naturalmente. Estivemos em Santiago naquele fatídico ano de 1973, quando a direita estava toda na rua para depor Salvador Allende e seu governo de Unidade Popular, pouco antes do golpe militar. Meninos, eu vi com meus olhos aquilo que Patricio Guzman definiu depois como ‘la insurreción de la burguesia’, na primeira parte de seu épico La Batalla de Chile. Sou um velho tolo. Escrevo isso e ouço, no meu imaginário, como trilha, a cantata de Santa Maria Iquique. Quillapayun. ‘El grito de los hornos…’ Via tanto cinema chileno naquela época. Havia uma revolução em curso também no cinema. Aldo Francia, Helvio Soto, Miguel Littin, Raul Ruiz. E os filmes – Ya No Basta con Rezar, Valparaiso Valparaiso, Voto + Fusil, Caliche Sangriento, El Chacal de Nahueltoro. Não conheço livro mais belo de memórias que o de Pablo Neruda. Confesso Que Vivi. Patria dulce y triste. Acho que aprendi a amar o Chile através da escrita do poeta. Que pais é esse? O Chile teve dois Prêmios Nobel de Literatura. Gabriela Mistral e Neruda. O relato que ele faz da grande dama aristocrática, atravessando o Chile de trem e sendo aclamada pelas multidões – após a premiação, mas se mantendo distante do povo -, é qualquer coisa. El Chacal é um dos filmes da minha vida. Três Tristes Tigres é outro. As noites quentes de Santiago. Bebedeiras e misérias. Embora o título seja o mesmo do livro cutuado de Guillermo Cabrera Infante, o filme baseia-se numa peça de teatro de Alejandro Sieveking, e foi adaptado por Ruiz com o próprio autor. Estou aqui viajando no tempo, nas lembranças. Mas eu volto para retomar o fio.