As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Lars!

Luiz Carlos Merten

22 de dezembro de 2013 | 13h22

Esse povo de teatro é impagável. Tivemos não um jantar, mas uma cervejada, acho que na terça – perdi a noção dos dias. Fomos a um lugar da Peixoto Gomide, quase com a Estados Unidos, à direita de quem desce. Não lembro como se chama. Um lugar de cervejas belgas. Umas delícia. Lá pelas tantas, uma figura maravilhosa na mesa – mulher de peito e tudo – anunciou que estava fazendo tratamento para clarear o ânus (e, é claro, usou a palavrinha que começa com C). A noite foi hilária depois disso e a farra continuou no Caderno 2, quando contei, com detalhes que fui acrescentando, a história. A gente nem sofre, mas se diverte, parafraseando o carinha da concorrência. Aliás, não tenho por hábito ler o dito cujo, mas não é que li outro dia e havia essa pérola no texto (acho que foi o meu sexto sentido que me chamou para a leitura) –  lugar de petista é na Papuda, de tucano é na gaveta… Enfim, já fiz digressão demais. Havia me programado para rever ontem A Desolação de Smaug ontem à tarde, mas tive de passar em casa, deviam ser 3h30 (da tarde). Dei uma zapeada e na HBO estava começando O Senhor dos Aneis – As Duas Torres. Só consegui sair de casa às 8, para jantar. Aquilo não é um filme, é um monumento. Ação, efeitos, muitos efeitos, mas o que importa é o intimismo e a partir da cena em que Sam carrega Frodo montanha acima, para destruir o anel, eu choro compulsivamente, como só acontece no jantar de Rocco, após a vitória de Alain Delon no ringue e a chegada de Simone (Renato Salvatori), que vem anunciar que matou Nadia. Engraçado, não era assim que pretendia enfocar o assunto, mas vou pegar carona no que acabo de escrever. Lars Von Trier é provocador, enganador (estabeleceu no Dogma regras que foi o primeiro a subverter) e até louco (de perto ninguém, é normal), mas seu cinema me arrasta a experiências viscerais. Com Von Trier vou a lugares – do meu inconsciente, do meu imaginário – que raros autores atingem. Não tinha lido nada sobre Ninfomaníaca. Só sabia que Kirsten Dunst recusou o papel e que, pelo título, devia ter safadeza. Curioso, agora que escrevo me lembrei do episódio da ninfomaníaca em A Noite, de Michelangelo Antonioni, quando Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau visitam Bernhard Wicki no hospital. A cena passa inteira nos meus olhos e o que mais me impressiona, lembrando agora, é a boca de Maria Pia não sei das quantas (a atriz que faz o papel). Muito interessante essa história de representar com a boca aberta – Adèle Axerchopoulos, feito um bebezão em Azul É a Cor Mais Quente; a garota de Ninfomaníaca. Maria Pia crispa os lábios, tira deles um som lascivo. Uau! Como não sabia nada sobre Ninfomaníaca, tudo aquilo era novidade que eu seguia pensando comigo. Esse Lars devia ter vindo para o Brasil antes de fazer esse filme. Qualquer pornochanchada no fim de noite do Canal Brasil é mais forte. E aí veio a cena de Uma Thurman, como a mulher que invade com os filhos a casa de Stacy Martin, para a qual se mudou seu marido. Aquilo já foi um choque. E logo em seguida veio o Bach, culminando no grito angustiado de Stacy. Esse grito ressoa nos meus ouvidos como de Charlotte Rampling no final de “Eu, Anna’. Essa capacidade que o cinema tem de nos fazer compartilhar o desespero. Apesar de todas as diferenças entre ambos, encontrei no final de ‘Ninfomaníaca’ o pathos que me faltou em ‘Amor’, de Michael Haneke, que pode fazer a cabeça de meia humanidade, mas a mim não convence, sorry. O que é o cinema, qu’est-ce le cinéma? Já fiz tantas vezes a pergunta aqui no blog. Vou reformulá-la. O que é a perfeição no cinema? É o Bach de Lars Von Trier, na tríplice cena de sexo que encerra ‘Ninfomaníaca Volume 1’. Haverá nova cabine amanhã, porque na sexta o filme, em inglês, passou sem legendas. Estou pensando em largar tudo para embarcar, de novo, naquela viagem. E vocês, guardem a data. A estreia será em 10 de janeiro, o volume 2 chegará em março e, entre ambos, o corte do diretor – a versão estendida, com 5 horas e meia -, vai passar em Berlim.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: