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Lamentável

Luiz Carlos Merten

22 de setembro de 2019 | 11h55

Um leitor indignado com o post sobre Midsommar, que define como lamentável, escreveu para o jornal apontando dois erros. Sacerdotiza com Z, não sei como saiu assim, porque sei que é com S, e o título do filme de Ari Aster é Hereditário, e não Hereditariedade. O curioso é que já escrevi uma resenha, como diz o leitor, sobre O Mal não Espera a Noite, que ainda não consegui publicar no jornal e está na minha caixa de e-mails. Fui conferir e sacerdotisa está certo e o título do filme também, o que talvez seja um caso para Freud explicar. Confesso que costumo baixar a guarda no blog, e isso talvez explique os erros, que não sei se chegam a ser lamentáveis. No outro dia, cheguei a trocar o nome de uma amiga, a cineasta Emília Silveira, que saiu Santiago, e já me desculpei com ela. Compreendo que o lamentável seja para ofender, porque o leitor, obviamente, é do tipo que leva a sério o terror metido de Ari Aster e não concorda com minha abordagem. No discurso, seu lugar de fala, está implícito que um jornal do porte do Estadão não pode ter um sujeito lamentável escrevendo – quem sabe ele? É um sinal dos tempos. Vale tudo contra quem não pensa como a gente. E, aliás, foi isso que achei interessante no Divaldo de Clovis Mello, que também havia escrito errado no post anterior – com acento e um L. Lamentável, não? O filme é muito sobre como Divaldo precisa disciplinar-se e vencer o inimigo dentro dele para chegar a ser o mensageiro da paz, e também como tem de fazer um trabalho de convencimento na própria família para que o pai, por exemplo, aceite sua doutrina. Tem um aspecto que achei muito discreto, muito bonito no filme e não sei se consigo abordar. Talvez esteja no olhar de quem vê. O amigo. Me toca muito essa questão do afeto, quando se baseia na sinceridade. E o Ghilherme Lobo, insisto, é bom demais. Como toda sexta, comprei a Folha por causa do Guia e da coluna de Djamila Ribeiro. Um texto muito instigante, A boca não vence a guerra. Atacar, desacreditar quem não pensa como a gente nos trouxe ao atual estado do mundo, e do Brasil. Citando Djamila, e Toni Cade Bambara – A revolução começa com a gente, no interior. E ainda sobre Divaldo. Ao procurar uma sala e horário para ver o filme, fiquei impressionado com a quantidade de filmes sobre vocações, espiritualidades, milagres – Entrevista com Deus, Eu Acredito, O Filho do Homem, Nada a Perder 2, etc. E depois de Divaldo vem aí o Arigó com Danton Mello, cujo trailer vi ontem. O problema dessas biografias é que, buscando ressaltar o positivo de certos exemplos humanos, viram chapa-branca. Hagiografias. Nem me passa pela cabeça sugerir que seja a mesma coisa, mas o documentário sobre João de Deus mostra o risco, e o limite, dessas iniciativas. Eu próprio fiquei impressionado com o que parecia a grandeza daquele homem, e deu no que deu.

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