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Lágrimas de Esperança. Sounder, a Baleia de Hollywood

Luiz Carlos Merten

11 de março de 2019 | 09h55

Esse vai ser outro post que vinha querendo fazer há tempos, embora não tanto quanto o do díptico que Yves Robert adaptou de Marcel Pagnol. Estou falando da época do Oscar e da indignação provocada por Green Book – O Guia. Apoio qualquer movimento para que cineastas negros (e negras) contem suas histórias e não tenho a menor dúvida de que Infiltrado na Klan, de Spike Lee, é melhor e mais ousado que o filme do irmão Farrelly, assim como, em nome da diversidade, Roma, de Alfonso Cuarón, consegue ser melhor ainda que os dois. Mas uma parte de mim se recusa a rejeitar a herança histórica. Hoje em dia, parece que há um movimento para desautorizar filmes de homens brancos sobre os negros e suas lutas. Alguns dos melhores filmes sobre racismo foram feitos por brancos. Não discuto que o sistema, dominado por brancos, estava formatado para isso, nem que seja necessário quebrar essa hegemonia, mas a questão é que certos filmes, e autores, se destacaram pela excelência. Poderia estar pensando em Jean Rouch, embora não creia que o tema de Les Statues Meurrent Aussi e Moi, Un Noir seja realmente o racismo. Estou pensando em Martin Ritt e em seus grandes filmes – Hombre, o racismo contra o índio, e A Grande Esperança Branca e Lágrimas de Esperança, o racismo contra o negro. Lembro-me do impacto que me provocaram esses filmes. Hombre é faroeste e termina com o mestiço Paul Newman virando o jogo contra os pistoleiros que assaltaram a diligência. Resgata a mulher branca que foi sequestrada e, mortalmente atingido, recebe a homenagem do mexicano, que não quer morrer sem saber o nome daquele ‘hombre’. A Grande Esperança Branca é sobre o pugilista negro (James Earl Jones, que depois deu voz a Darth Vader) que desafia duplamente a sociedade racista do Sul dos EUA – ao massacrar os adversários brancos no ringue e ao se relacionar intimamente com uma mulher branca, Jane Alexander. Ambos, Jones e Jane, foram indicados para o Oscar, mas venceram o George C. Scott de Patton – Rebelde ou Herói?, de Franklin J. Schaffner, também o melhor filme de 1970, e a Glenda Jackson de Mulheres Apaixonadas, de Ken Russell. Paul Winfield e Cicely Tyson também foram indicados para o Oscar em 1972, mas perderam para o Marlon Brando de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, e a Liza Minnelli de Cabaret, de Bob Fosse. O filme de Martin Ritt era Lágrimas de Esperança, também indicado na categoria, mas não para melhor diretor. A história de uma família de negros em Louisiana, durante a depressão econômica. O filho sonha estudar, mas o pai vai preso, por haver roubado comida para alimentar a família. Na cadeia, apanha, sai estropiado e o filho tem de escolher entre a educação ou ajudar o alquebrado pai. No original, o título é Sounder, o nome do cachorro, que também envelhece. Vidas Secas à americana. Sounder é a Baleia de Ritt e é pelo olhar canino que o cineasta narra sua história pungente de conscientização – o filho vira homem, e consciente do seu valor, da sua força, disposto a lutar. Ainda nos anos 1960, antes de A Grande Esperança Branca e Sounder, Ritt fez seu maior filme e uma das obras-chave no meu Olimpo. Ver-te-Ei no Inferno/The Molly Maguires. O policial Richard Harris infiltra-se numa organização de mineiros da Pensilvânia que contestam o sistema explodindo minas. Sean Connery é seu oponente. Ritt, que esteve na lista negra do macarthismo, fez o seu O Delator. Samantha Eggar, que sempre odiou aquela vida, tem a fala final para Harris. Diz que sempre pensou que faria qualquer coisa para abandonar aquele inferno, mas não com ele, não ao preço da traição. Ritt resume, por si só, uma história de altivez e resistência no cinema de Hollywood. Amo seus (grandes) filmes. Homens brancos não podem nem devem se apropriar do racismo para suavizar a complexidade das questões sociais e políticas. Mas homens brancos podem, sim, abordar o tema. Perdoem-me os que pensarem que estou errado. E vejam, de qualquer maneira, Lágrimas de Esperança.

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