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Lagartixa com pele de homem, Jean Sorel?

Luiz Carlos Merten

26 de agosto de 2015 | 09h44

Havia comprado a Cahiers de junho na banca do Conjunto Nacional. Levei a revista como leituras de bordo no voo para o Rio. Cahiers desanca a seleção de Cannes deste ano. Poupa na competição Hou Hsiao-hsien, A Assassina, e acho que só. Critica os chamados filmes de festival e associações, como direi, porque a revista não define explicitamente, aéticas. Em 2012, Tim Roth, presidente do júri da Caméra d’Or, premiou Despues de Lucía, do mexicano Michel Franco. Foi o ano em que Isabelle Huppert, fidèle de Michael Haneke, outorgou a Palma de Ouro para Amor, para seu diretor/autor favorito. O filme de Haneke, todo mundo se lembra, era sobre um marido que, no limite, eliminava a mulher vítima de Alzheimer. Este ano, Michel Franco integrou a competição de Cannes, e com Tim Roth como ator, no papel de um enfermeiro que cuida de pacientes terminais em Chronic. O filme, um sub-Amor, foi premiado pelo júri presidido pelos irmãos Coen, e não por seus méritos excepcionais. É que uma vez ungidos a integrar as seleções de Cannes, certos autores ganham cadeira cativa e ‘formam fila no guichê da glória’, adorei a definição de Cahiers, à espera da Palma de Ouro. Cahiers não reza pela cartilha de Jacques Audiard nem Michael Haneke nem Nuri Bilge Ceylan. A revista arrisca, e não sem ironia ou provocação – Michel Franco está ap0ntado para ganhar a Palma de 2017. Se perseverar, Paolo Sorrentino leva o prêmio em 2016, ou 18. O próprio Audiard deu razão a Cahiers, agradecendo a Haneke por sua Palma. Disse que sua sorte foi que o outro não estava na competição de 2015… No fundo, esse tipo de comentário é o que também faz – mas sem previsões -, Film Comment, cujas análises festivalescas, embora batendo com as de Cahiers, são mais acuradas. Tergiverso (como sempre), porque, na realidade, meu interesse na Cahiers de junho é outro, uma entrevista de Jean Sorel. Jean quem? Você sabe. Quase tão bonito quando Alain Delon, e com o mesmo tipo de francesinho insolente, Sorel destacou-se nos anos 1960 com uma série de ‘jeunes premiers’, todos belos e talentosos, que se alternavam fazendo filmes entre França e Itália. Delon, Sorel, mas também Pierre Clementi, Tomas Milian (este, nascido em Cuba). Deram cara à juventude francesa, à italiana, em filmes populares na época. E integravam, na Itália, a corte de grandes diretores gays, muito sensíveis à beleza masculina. Luchino Visconti, Mauro Bolognini. Sorel fez Um Dia de Enlouquecer, La Giornata Balorda, de Bolognini, que Pier-Paolo Pasolini escreveu. Ele reflete que, se o filme tivesse sido feito pelo próprio Pasolini, o ator teria sido Franco Citti, porque Pasolini, embora gay, não tinha a mesma atração pelos garotos bonitos, buscando seus amores bandidos no bas fond. Não vai nisso nenhum preconceito, somente constatação, e nem todos os diretores eram necessariamente gays. Na verdade, Jean Sorel foi descoberto por Alberto Lattuada, e ele conta como a nouvelle vague não se interessava pelos ragazzi di vita, cuja chance estava na Itália. I Dolci Inganni, Amantes e Adolescentes, de Lattuada, com Catherine Spaak – o velho era louco por ninfetas -, abriu-lhe as portas do cinema italiano e ele filmou com Bolognini, com Visconti – em Vagas Estrelas da Ursa, era o irmão incestuoso de Claudia Cardinale. Luis Buñuel viu-o no Visconti, quando o filme estreou em Paris, e chamou-o para fazer o marido de Catherine Deneuve em Belle de Jour. Sorel sabe da importância do filme, mas propõe uma leitura desmistificadora, a título de making of. Conta que Buñuel se enfadava no set e um dia chegou a dizer que estava fazendo o filme porque precisava dar um apartamento ao filho. Catherine Deneuve reclamava de seus diálogos e Buñuel e Jean-Claude Carrière, presente durante toda a filmagem, diziam que, para aquele tipo de gente (Sévérine & cia.), os diálogos eram mais que adequados. Buñuel divertia-se muito com a perversidade do filme e brincava com Sorel dizendo que, coitadinho, estava fechando para ele as fronteiras do México, porque, lá bas, detestavam ‘cocus’, cornos, como era o marido de Sévérine. Depois de Bela da Tarde, Jean Sorel integrou o boom dos policiais no cinema industrial italiano e filmou muito com Umberto Lenzi e Lucio Fulci. Vejam como são as coisas. Ao chegar em casa, do Rio, me esperavam duas caixas de lançamentos da Versátil. Uma de terror, com, entre outros filmes, A Inocente Face do Terror/The Other, de Robert Mulligan, baseado no livro do ator Tom Tryon, e outra sobre ‘giallo’. Corri para ver se havia algum filme com Jean Sorel. Com ele não, mas de Lucio Fulci (e Dario Argento, Mario Bava e Sergio Martino), sim. Fulci assina O Segredo do Bosque dos Sonhos, de 1972, com Florinda Bolkan e Tomas Milian, ao qual se aplica o que diz Sorel do diretor em Cahiers. Fulci era muito inteligente, seus filmes faziam sucesso de público, mas seu sonho era ser considerado um autor (o que só foi muito mais tarde).  Sorel elogia a imaginação visual do cineasta, mas deplora os roteiros. Diz que possuíam erros incríveis de (in)verossimilhança, mas ninguém, e muito menos Fulci, se importava com isso. Sorel deveria ter feito Les Biches/As Corças, com Claude Chabrol, e se o tivesse feito talvez sua trajetória fosse outra. Só no fim dos anos 1970 e começo dos 80, Benoit Jacquot e Paul Vecchiali lhe abriram, com glória, as portas do cinema francês. Achei bem interessante a entrevista de Jean Sorel, muito reveladora de uma época das coproduções franco-italianas, anterior ao europuding dos filmes e autores globalizados da atualidade. E Cahiers informa – em setembro, sai na França um ‘clássico’ de Jean Sorel. Venin de la Peur, de Lucio Fulci. No original, Uma Lucertola con la Pelle di Donna, Uma Lagartixa em Corpo de Mulher, o filme de 1970 é interpretado por Florinda Bolkan, Stanley Baker e Jean Sorel. Aliás, a Versátil bem poderia lançar um pacote Florinda Bolkan, só com os ‘gialli’ da estrela ítalo-brasileira.