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La France se LÈve!

Luiz Carlos Merten

05 de março de 2020 | 15h30

PARIS – Assisti ao díptico de Fritz Lang, O Tigre da Índia, aqui O Tigre de Bengala, e Sepulcro Indiano, e era bem o tipo de aventura romântica que eu, como leitor de Emilio Salgari, queria ver, por mais estranhamento que tenha me causado o fato de os indianos da trama falarem alemão. Fiquei pensando, cá com meus botões, sobre o colonialismo cultural. Se falassem inglês, Hollywood está tão incrustada no meu imaginário que, provavelmente, não teria estranhado. Saí do cinema, a Filmoteca do Quartier Latin, e ao dobrar a esquina, na Rue des Écoles, rumo ao hotel, para uma entrevista por telefone, vi-me no meio de bandeiras vermelhas. Uma manifestação de trabalhadores e estudantes contra a proposta de lei da retraite, a aposentadoria, do governo de Emmanuel Macron. Ao longo de toda a Rue des Écoles, e molhado, sob frio e chuva, meu velho coração de estudante experimentou o que só posso definir como euforia. A garotada e os mais velhos, unidos, gritando/cantando palavras de ordem. La France se LÈve! Estava escrito assim nos cartazes. O que me permite abordar um assunto sobre o qual não havia falado até agora. Em Berlim já me haviam falado dos protestos na 45ème cérémonie des Césars, na sexta-feira da semana passada, quando Roman Polanski levou três dos 12 prêmios a que concorria, por L’Affaire Dreyfuss – O Oficial e o Espião, incluindo o de melhor direção (Os Miseráveis foi o melhor filme). Não tenho procuração nenhuma para defender Polanski, mas gostei muito do filme dele e, ao chegar em Paris, vi que, ao longo da semana, os articulistas reverberaram muito o episódio, lembrando que o caso Dreyfuss foi marcado pelo antissemitismo e que manifestações contra judeus (e o sionismo) deram o tom quando o filme estreou nos cinemas da França. Não creio que Adèle Haenel possa ser acusada de antissemita – uma das maitresses de cérémonie li no Figaro que comparou Polanski a Atchim, o mais jovem dos sete anões de Branca de Neve -, e imagino que seu protesto, ao se levantar e ir embora, esteja muito mais ligado à acusação de abuso contra menor (e estupro) que pesa contra o cineasta, há mais de 50 anos. Adèle, que foi atriz mirim, denunciou por abuso o cara que a dirigiu quando criança, então faz todo sentido o seu protesto, mesmo que a vítima de Polanski já o tenha absolvido (perdoado?) há muito tempo, mas também tem outro aspecto nessa questão. Muita gente aqui bateu forte porque Adèle já manifestou publicamente sua admiração por Louis-Ferdinand Céline e assim, causa espanto que ela consiga separar vida e obra dele, mas não no caso de Polanski. As acusações a Céline não foram as mesmas a Polanski, o que torna a comparação um tanto estapafúrdia, mas também já ouvi que Adèle deve ter ficado indignada porque sua companheira na vida, Céline Sciamma, também concorria ao César de direção, e perdeu para Polanski, o que tornou todo o episódio mais intolerável ainda. Entendo que o mundo ficou muito complicado e a discussão de gênero ameaça cavar abismos profundos, e por isso mesmo tenho até medo, mas minha consciência me obriga a dizer que prefiro Dreyfuss a Retrato de Uma Mulher em Chamas, que me parece, hélas para Sciamma, mais bem dirigido (o Polanski). No César, eu também teria votado nele, e espero não ser machista por isso. Talvez seja uma coisa geracional, isso sim. Gostei muito do Woody Allen no ano passado e me doeu ver Um Dia de Chuva em Nova York ser jogado no lixo, da mesma forma que, no passado, me doeu ver a carreira de Mia Farrow destruída por suas acusações a ele. Allen fez seus melhores filmes com a então mulher. Disse-lhe isso numa entrevista, e ele concordou. Allen criou, nos filmes, o mito de uma Mia compassiva, humana, generosa, perfeita e ouso dizer que ele próprio não conseguiu lidar com isso na realidade. Só que o apoio que teve na separação caiu por terra em tempos de #MeToo. Não sei até quando vou continuar separando vida e obra, a pessoa – o homem – e o artista, em casos como os de Woody Allen e Roman Polanski. Essa tolerância confesso que não tenho por Harvey Weinstein, que sempre me pareceu arrogante, prepotente, só de vê-lo em festas em Cannes (no tempo em que elas ainda ocorriam). Pergunto-me – Harvey praticava suas atrocidades até ontem. Allen e Polanski já não terão purgado, com o tempo e o sofrimento, as acusações contra eles? Espero não ser linchado por continuar a admirá-los como artistas. Admito que sejam dois pesos e duas medidas. No Brasil, não consigo mais ter respeito por artistas que venderam a alma ao Diabo (vocês sabem quem).