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Kurosawa, tributo ao Imperador

Luiz Carlos Merten

22 de março de 2020 | 11h16

Em 1954, Akira Kurosawa tinha 44 anos e já adquirira prestígio internacional quando Rashomon recebeu o Leão de Ouro em Veneza, em 1951. No ano seguinte, mudando o tom, ele recebeu outro prêmio importante, e foi o Urso de Prata em Berlim, por Viver. Dois filmes que não podiam ser mais diferentes. Um épico de espada, com lutas esplendidamente coreografadas e uso ao mesmo tempo plástico e dramático do décor da floresta, e a odisseia íntima de um homem que descobre que está morrendo e passa meio filme buscando um sentido para sua vida medíocre e a outra metade o elogio fúnebre de pessoas que nos ajudam a dimensionar a importância dessa vida. Quem lê o blog regularmente talvez já tenha feito a ligação – o Matto/Louco explicando a Gelsomina que tudo e todos têm um propósito em A Estrada da Vida, de Federico Fellini, de 1954. Naquele ano, Federico recebeu o Leão de Prata em Veneza, dividido com outros três diretores que pertencem à história – Elia Kazan (Sindicato de Ladrões), Kenji Mizoguchi (O Intendente Sancho) e… Quem mais? Kurosawa! (O Leão de Ouro daquele ano foi para Renato Castellani, e seu Romeu e Julieta.) Kurosawa venceu por Os Sete Samurais, de novo o cinema de espadas, a história dos camponeses que contratam profissionais para proteger suas colheitas, ameaçadas por bandos selvagens. Kurosawa foi influenciado pelo cinema norte-americano, pelo western (e o filme noir). Seu cinema de ação bebe na fonte do farvestão e, num efeito bumerangue, Os Sete Samurais foi refeito em Hollywood por John Sturges em 1960 e por Antoine Fuqua em 2016. Enfim, Kurosawa filmava Os Sete Samurais – com Takashi Shimura e Toshiro Mifune. Numa cena com numerosos extras, um jovem desengonçado, de 19 anos e quase 2 metros, chamou sua atenção. O diretor gastou seu tempo ensinando-o a caminhar como um samurai. A cena não dura mais que 4 segundos na tela, um piscar de olhos, mas Tastsuya Nakadai, o jovem em questão, jurou a si mesmo que, se Kurosawa o chamasse de novo, nunca masis teria de corrigi-lo. Nakadai virou um grande ator de teatro e cinema, protagonizou a monumental trilogia Guerra e Humanidade, de Masaki Kobayashi, e em 1961, quando Kurosawa-san procurava o antagonista de Toshiro Mifune em Yojimbo, e o diretor de elenco sugeriu Nakadai, ele não quis nem saber. O diretor de elenco nãso insistiu, mas incluiu cenas de Nakadai nos testes que Kurosawa ia avaliar. Sabia que, se insistisse, entraria em choque com a intransigência do diretor e assim, pelo menos na aparência, foi o próprio Kurosawa que chamou Nakadai para Yojimbo e o manteve em Sanjuro. Mais tarde, quando rompeu com Toshiro Mifune – um incidente que parecia banal durante a filmagem de O Barba Ruiva, de 1965; o ator, diante da equipe, ousou dizer que uma cena ficaria melhor filmada de outro jeito e o Imperador, como Kurosawa era conhecido, não admitiu a insolência -, o grande cineasta colocou Nakadai no centro de dois de seus maiores filmes, Kagemusha e Ran. Quem já leu o post até aqui deve estar-se se perguntando – mas por que toda essa história? Porque amanhã, segunda, 23, comemoram-se 110 anos do nascimento de Akira Kurosawa. Steven Spielberg, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola – todos o consideram um dos grandes do cinema. Quando Kurosawa morreu, em 6 de setembrto de 1998, aos 88 anos, Spielberg definiu-o como “the pictorial Shakespeare of our time”. Além dos prêmios citados, ele ganhou a Palma de Ouro, dividida com All That Jazz, de Bob Fosse, por Kagemusha, em 1980, e o Oscar de melhor filme estrangeiro por Dersu Uzala, em 1985. Kurosawa fez 16 filmes com Toshiro Mifune, incluindo alguns dos melhores – Cão Danado, Rashomon, Os Sete Samurais, Trono Manchado de Sangue, Yojimbo. Com Nakadai, foram cinco, incluindo obras de grande prestígio, como Kagemusha e Ran. Parece absurdo querer reduzir essa obra gigantesca a um punhado de cenas, ou filmes, mas eu ouso. O ‘meu’ Kurosawa é Yojimbo. Lembro perfeitamente quando vi o filme no antigo cine Coral, no Moinhos de Vento, em Porto Alegre, onde trabalhava o meu cunhado, Mário Pacheco (e eu tinha acesso livre). Lembro de tudo – o cinemascope, o preto e branco, a lente zoom. Mifune, perguntado sobre seu nome e olhando o vento que agita o trigal, antes de responder. Momentos como esse estão inscritos a ferro e fogo no meu imaginário. Só para lembrar, as vidas e os filmes de Akira Kurosawa e Toshiro Mifune são mapeados por Stuart Galbraith IV num livro muito bem documentado – The Emperor and the Wolf, da editora Faber and Faber, de 2001. Mifune morreu meses antes de Kurosawa, na véspera do Natal de 1997, aos 77 anos.