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Kobayashi! Rivette! Corneau! A Versátil faz festa para cinéfilos

Luiz Carlos Merten

01 Julho 2016 | 23h55

Cheguei em casa agora à noite e me esperava a nova caixa da Versátil. Não sei nem por onde começar. Talvez por As Quatro Faces do Medo, Kwaidan, de meu amado Kobayashi. Era muito jovem quando vi a trilogia dele, Guerra e Humanidade, também conhecida como A Condição Humana. Só bem recentemente descobri que o título original, Nigen no Joken, tem outro significado – Os requisitos para ser considerado humano. Dez horas que retratam o horror da guerra, recriada através da experiência de Kaji, interpretado pelo maior ator que já existiu, Tatsuya Nakadai. Ele não apenas era o ator fetiche de Masaki Kobayashi como fez grandes filmes de Eizo Sugawa e Akira Kurosawa. Guerra e Humanidade divide-se em três filmes – Não Há Maior Amor, o Caminho da Eternidade e A Prece de Um Soldado. P.F. Gastal, o Calvero, crítico que fez história no Rio Grande do Sul, amava Kobayashi. Seus textos sobre esses três filmes talvez não tenham sido análises excepcionais, mas bastaram para despertar meu interesse e me fazer amar o grande Kobayashi. Tinha uma fantasia, acho que inspirada por Hiroshima, Meu Amor – o maior filme do mundo teria de ser interpretado por Tatsuya Nakadai e Jeanne Moreau. Depois de Guerra e Humanidade vieram Harakiri e Rebelião, o maior filme de toda a história do cinema japonês – Nakadai versus Toshiro Mifune num embate antológico, de uma grandeza insuperável – e, entre os dois, Kwaidan. Quatro histórias de Lacadio Hearn, e pode ser que agora, revendo o filme, eu mude de opinião, mas sempre me impressionmou muito o conto do homem que tatua todo o corpo para se defender do Diabo, mas deixa as orelhas de lado e o maligno as decepa, deixando-o surdo. Há um mistério da cor em Kwaidan. A Versátil usou uma frase minha – “O uso da cor por Kobayashi é um deslumbramento.” Kobayashi, portanto, e também Dario Argento – um pacote com dois filmes, Rosso Profondo e Suspiria, ao qual prometo voltar. E os franceses – dois Rivette(s), A Bela Intrigante e Um Passeio por Paris/Le Pont du Nord; um duo de Truffaut, A Mulher do Lado, e Chabrol, Mulheres Diabólicas. Posso ser louco – é a minha lucidez -, mas sou mais Claude que François. Outro francês, Todas as Manhãs do Mundo. Tenho até medo de rever o longa de Alain Corneau sobre o mítico Sainte Colombe, mestre da viola de gamba. A morte da mulher faz dele um recluso. Vive para sua arte e as duas filhas. O rei o requisita, e não um rei qualquer – Luis XIV, o Rei Sol. Ele resiste, e aí vem esse jovem que quer aprender com ele. Gérard Depardieu, seu filho Guillaume e Jean-Pierre Marielle. Todas as Manhãs é de uma austeridade… bressoniana? É um dos meus filmes preferidos sobre a criação musical, com A Crônica de Ana Madalena Bach, de Jean-Marie Straub. O novo pacote da Versátil é uma festa de cinéfilos. E todos os DVDs são pródigos em extras. Documentários, trailers, entrevistas, abordagens críticas. O que vocês estão esperando?