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Kobayashi, o grande (o maior?)

Luiz Carlos Merten

15 de dezembro de 2013 | 12h02

Existem cultos a vários diretores japoneses. Wim Wenders reverencia Yasujiro Ozu, Jean-Luc Godard sempre teve Kenji Mizoguchi num panteão, mas em todo o Ocidente não há culto maior do que o dedicado a Akira Kurosawa. Não é pouca coisa que ele fosse chamado de ‘imperador’. O imperador era sagrado, considerado uma divindade até a derrota japonesa na 2.ª Guerra. Não podia ser tocado nem olhado nos olhos. Erigiu-se, para Kurosawa, a figura do grande solitário. O imperador. Suas tragédias, a pessoal – tentativa de suicídio –, e as cinematográficas – Trono Manchado de Sangue, Kagemusha e Ran –, somente cristalizaram o mito. Tudo isso é verdade, mas eu curto muito outros diretores japoneses. Mikio Naruse, Kaneto Shindo, Kon Ichikawa, Eizo Sugawa, Heinesuke Gosho, do belo Corvo Amarelo. E me lembro muito de Zenzo Matsuyama, de A Felicidade Está em Nós. A história daquele casal de surdos me assombra. Vivem isolados, têm uma filha. Um ladrão invade a casa, deixa a porta aberta. O bebê engatinha e cai na neve. Morre chorando, de frio, sem que os pais percebam. A Versátil bem poderia resgatar Matsuyama para que eu saiba, afinal, se A Felicidade é um pavoroso melodrama, como a sinopse sugere, ou o filme delicado e sensível inscrito a ferro e fogo no meu imaginário. E há, claro, numa categoria à parte, Masaki Kobayashi. P.F. Gastal, Paulo Fontoura Gastal, o Calvero – grande crítico gaúcho -, amava Guerra e Humanidade. Eu era jovem, 14/15 anos, quando comecei a acompanhar a saga de Kagi, Tatsuya Nakadai. Não Há Maior Amor, Estrada para a Eternidade, A Prece do Soldado – acho que meu amor pelas trilogias vem daí. Dez horas de grande cinema. Kobayashi, que havia sido assistente de Keisuke Kinoshita – mas rompeu com seu mestre –, baseou-se num romance famoso, mas colocou na tela muito de sua experiência pessoal como prisioneiro na Guerra da Manchúria. Desmistificada a guerra, a sociedade militarizada em que se convertera o Japão, ele foi à origem de todo o sofrimento, o caminho do samurai, com seu rígido código de honra, o Bushido. Fez Hara-kiri e Rebelião. O ator, sempre, Nakadai. Volto à dobradinha Kobayashi/Nakadai porque, para mim, não existe filme japonês maior que Rebelião. Fiquem com seus Ozus, Mizoguchis e Kurosawas – dos quais gosto, e às vezes muito. O senso trágico de Kobayashi é insuperável. Rebelião integra a caixa Cinema Samurai da Versátil. Por uma vez, Kobayashi requisitou Toshirop Mifune, que já deixara de ser o ator-fetiche de Kurosawa, sem abrir mão de seu formidável Nakadai. Olhem a história. Isaburo/Mifune é um fiel vassalo de Matsudaira. O xogun, cansado de sua concubina, dispensa Ichi, mas força o filho de Isaburo, Yogoro, a casar-se com ela. Isaburo revolta-se, mas o casal se ama e ele termina por aceitar (e respeitar). O herdeiro morre e o filho bastardo de Matsudaira e Ichi será o novo xogun. Ela é requisitada de volta para o palácio. Nega-se a ir. Ichi e Yogoro são mortos, Isaburo pega em armas contra Matsudaira. Em seu caminho surge Tatewokoi, o maior dos espadachins, e tinha de ser Nakadai. O bushido, a devoção de Tatewokoi a Matsudaira, o obriga a enfrentar Isaburo e defender seu senhor. Mas ele sabe que a causa de Isaburo é justa e, se o derrotar, se o impedir de fazer justiça, estará indo contra o próprio código de ética. O que faz Tatewokoi? Você precisa ver o duelo final de Rebelião. John Ford, a grandeza dos derrotados. Sou um velho tolo, romântico, sei. Mas assim como a primeira parte da sublime trilogia de Kobayashi se chama Não Há Maior Amor, não existe filme mais belo que Rebelião. Bem, talvez exista algum outro, Rocco? Rastros de Ódio? Rebelião está no meu panteão. E o confronto Mifune/Nakadai… Qu’est-ce que le cinéma? É aquilo.

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