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King Vidor, Guerra e Paz (2)/Tempo e paciência

Luiz Carlos Merten

18 de maio de 2020 | 17h27

Antes de voltar a falar no Guerra e Paz de King Vidor, acho importante lembrar que há também o filme russo de Serguei Bondartchuk, de 1966/67, que venceu o Oscar em 1968. Só para esclarecer, foi o ano em que o musical Oliver!, de Carol Reed, venceu nas categorias principais de melhor filme e direção. Confesso que, no retrospecto, nunca tive muito apreço pelo Bondartchuk. Até onde me lembro, havia ali um resquício de realismo socialista e, sendo, também, um romance (e filme) sobre a terra, cada vez que os personagens falavam na ‘mãe’ Rússia soavam gongos, sinos, harpas e tudo o mais que realçasse a grandiosidade do berço pátrio do cineasta (e de Leon Tolstói, claro). Na revista Cineaste a que me referi num post anterior – sobre o lançamento de um livro em inglês sobre Paulo Emílio Salles Homes -, há também uma matéria extensa, de duas páginas e meia, que não li, sobre o Guerra e Paz soviético, que saiu na Criterion Collection (dá para procurar em www.criterion.com, ou encomendar pela Amazon). Voltemos ao Rei. Como já foi dito antes, King Vidor não era o mais ardoroso fã do próprio filme. Queria outro ator como Pierre (Peter Ustinov, em vez de Henry Fonda), não conseguiu filmar a batalha de Borodino na paisagem que havia escolhido, etc. Audrey Herpburn, como Natacha, é a anima da sua adaptação. O filme tem fama de acadêmico, edulcorado. Não é. Nastacha relaciona-se com todos aqueles homens – Andrei, Anatole, Pierre – para amadurecer, transformar-se e realizar a conversão (amorosa, religiosa) que está na essência do filme, como do livro. André e Pierre são opostos, o homem de ação e o da reflexão, e o relato evolui por meio desses embates. Vidor e seu batalhão de roteiristas – oito, incluindo o diretor – trouxeram para o centro do filme outra oposição, entre Napoleão e o General Kutuzov. O primeiro invade a Rússia com um Exército tão grande quanto equipado. Kutuzov sabe que não terá chance contra ele. Adota como estratégia contra o invasor a fórmula tempo e paciência. Time and patience. E ainda diz – ‘Não se colhe a maçã quando ainda está verde. Napoleão vence a batalha, mas não a guerra. Seu Exército corrompe-se, e ainda tem de enfrentar a retirada. Paciência, porque o tempo, o inverno, vencerá. Herbert Lom e Oscar Homolka fazem os papeis. Por sua voz e aparência, o segundo, embora nascido na Áustria, virou uma espécie de russo oficial em Hollywood. Papéis de militares, espiões comunistas? Chama o Oscar Homolka. A grande originalidade de Vidor foi fazer de Natacha e Napoleão personagens gêmeos, apesar das diferenças evidentes. Espelham-se um no outro sem se encontrar, são como as duas faces da moeda. Ambos possuem o mesmo desejo de expansão dos próprios limites – a totalidade do amor para ela, a do império para ele -, mas o princípio da realidade é mais forte e os condena ao… Fracasso? Delírio de interpretação? Ou será mera coincidência que os rostos de Natacha e Napoleão sejam filmados da mesma forma, contra janelas, ela, com a água da chuva escorrendo, ele, com os reflexos do fogo dos incêndios em Moscou. Água e fogo, dois dos elementos, tudo a ver com um filme sobre a terra. Sempre houve controvérsia quanto à autoralidade de Guerra e Paz porque, por razões de economia, o Rei não dirigiu o filme sozinho. Com o prazo se esgotando, enquanto ele filmava a batalha de Borodino, Mario Soldati rodava em estúdio – o filme foi feito na Itália – cenas com Lom e Homolka. O conceito, porém, não poderia ser mais vidoriano. E ainda tem a cor (fotografia de Jack Cardiff), a música (Nino Rota). Tudo isso soma, mas a beleza do filme vem dos solilóquios de Natacha e desse equilíbrio entre o épico (Borodino) e o íntimo (a morte de Andrei).