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King Vidor, Guerra e Paz (1)/A guerra, a terra e a conversão

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2020 | 23h53

Não sei nem se estou sendo lido, e de qualquer maneira, havia prometido a mim mesmo só mais um ultimo postezinho, o anterior, neste domiingo. Não foi. Preciso escrever mais um. Entrei pela madrugada assistindo a Guerra e Paz. Em Berlim, consegui assistir a alguns clássicos de King Vidor, mas desde logo descartei a adaptação de Leon Tolstói pelas quase quatro horas. Num festival internacional, isso equivale a deixar de assistir a dois novos filmes. No domingo, último dia da Berlinale, mesmo passando mal, preferi rever Fúria do Desejo/Ruby Gentry. Ontem, zapeando, escrevendo textos da série Clássicos do dia, até me esqueci da homenagem do Telecine Cult a Henry Fonda. O pai de Jane e Peter nasceu em 16 de maio de 1905 – há 115 anos. O canal exibiu quatro de seus filmes, começando com Doze Homens e Uma Sentença, de Sidney Lumet, de 1957, e terminando com Guerra e Paz, de 56. Estava zapeando, devo ter perdido uma meia hora, mas quando comecei a ver não consegui desgrudar o olho. Em Paris, comprei dois livros sobre o Rei Vidor. Uma coletânea de ensaios organizada por Jean-Marie Lecomte e Gilles Menegaldo na Coleção CinémAction, King Vidor – Odyssée des Inconnus, com prefácio de Jean-Loup Bourget, e o último, em parceria com Françoise Zamour, é o autor do outro livro, chamado simplesmente de King Vidor, na Librairie Philosophique J. Vrin. Gosto demais do filme, sempre gostei, e apreciei muito saber que Bertrand Tavernier coloca Guerra e Paz, em relação à obra do artista, no mesmo lugar que Le Carrosse d’ Or e Rastros de Ódio ocupam nas trajetórias de Jean Renoir e John Ford. Bourget define o filme como genial, e nisso vai contra o próprio King, que sempre manifestou reservas ao próprio trabalho, não se perdoando 1) por haver aceitado Henry Fonda como Pierre, uma imposição do produtor Dino De Laurentiis, quando sua escolha ia para um ator mais parecido, fisicamente, com ele, Peter Ustinov; e 2) ter aceitado, também, trocar, por razões de economia, a localização do set da batalha de Borodino, que havia planejado minuciosamente em outro lugar e que permanece, apesar de suas reservas, um grande momento de cinema, tanto mais impressionante porque, na época da filmagem, tinha de ser multidão (mesmo), sem efeitos digitais. Creio que quem me lê deve me achar louco, ignorante ou os dois, porque sempre comparo Pierre em Borodino a Fabrizio Del Dongo atravessando a batalha em A Cartuxa de Parma, de Stendhal. No livro, Pierre vai ao campo para ‘ver’ a guerra que detesta, e sai transformado. Sempre sonhei com a cena de Fabrizio na guerra filmada por Luchino Visconti e com a Sanseverina como uma personagem tão viscontiana como a Lívia Serpieri de Senso/Sedução da Carne. Delírio meu. Vidor sempre viu Natacha como a anima, no sentido junguiano, de seu filme. Ela atravessa a narrativa transformando-se em contato com os homens da história – Andrei, Anatole, Pierre. Natacha amadurece pelo sofrimento. Amo Audrey Hepburn no papel, sua aparente fragilidade, até uma certa androginia, e revendo o filme fiquei fascinado pelas cenas dela com Mel Ferrer, que faz Andrei. Audrey foi casada com Ferrer de 1954 a 68. Há uma química no olhar dos dois e a impossibilidade desse amor me tocou muito, como se já sinalizasse, na vida, que uma separação teria de ocorrer. O filme tem cenas importantes de mortes, e a de Andrei me tocou muito pela dedicação de Natacha, e a mudança no próprio Andrei. Espero que isso não seja considerado spoiler – é como ‘antecipar’, ó céus, que Cristo será crucificado. Andrei é o homem de ação, Pierre, o da reflexão, e Anatole, o hedonista que só pensa no próprio prazer. A guerra, a terra e a conversão amorosa/religiosa – amar a vida é amar a Deus -, tudo levava o Rei a Tolstói. O post está quilométrico. Vou interromper e prosseguir em outro.

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