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King Vidor e o pão nosso (de cada dia)

Luiz Carlos Merten

02 de maio de 2020 | 12h18

Na Film Comment nas bancas, edição relativa aos meses de março/abril, já contei que existem crtíticas muito elogiosas sobre First Cow e Bacurau – Kelly Reichardt’s tale of friendship and fortune e Bacurau strikes back. Tem também George Romero’ s last movie, Lou Ye’s China e last but not least, King Vidor, Hollywood realist. Pegando carona na homenagem que o rei Vidor recebeu em fevereiro, na Berlinale – uma retrospectiva de cair o queixo, cheia de cópias restauradas de seus maiores filmes -, Nick Pinkerton debruça-se sobre a gigantesca obra vidoriana. Confesso que Berlim, este ano, me colocou alguns problemas bem específicos. Passei mal, coisa de saúde mesmo, e houve um momento em que achei que não poderia continuar, teria de ir a um hospital e, quem sabe, seria internado – para isso havia o seguro saúde. Não fui e, na sequência, em Paris, tudo voltou ao normal – no começo de março, quando o quadro da pandemia já se alastrava na Europa! No festival, por se tratar de uma cobertura jornalística, privilegiei a competição e os muitos filmes brasileiros espalhados pelas diversas seções. Como consequência, perdi muita coisa que queria ter visto nas mostras paralelas, porque ainda havia a retrospectiva de King Vidor e eu fui a Berlim consciente de que, no fundo, era só, ou o que mais queria ver. Como? Um diretor que morreu em 1982 e cujo último filme, que nem é dos bons, data de 1959, há mais de 60 anos? Foram tantas as revoluções estéticas e tecnológicas que se seguiram desde então, o que King Vidor ainda podia ter de tão interessante para me dizer? Vi e revi algumas coisas essenciais. A gente só se arrepende do que não faz e eu talvez me arrependa de tudo que não fiz nos últimos 30 (ou quase) anos, mas é bobagem. No último dia da Berlinale de 2020, passando mal, entre Our Daily Bread/O Pão Nosso, de 1934, e Ruby Gentry, de 1952, meu fascínio pelo erotismo vidoriano falou mais alto e terminei revendo, acho que pela décima vez, a Jennifer Jones. They say/Ruby is like a thief… Só me arrependi agora, lendo o Nick Pinkerton. Afinal, nunca vi O Pão Nosso e, em seu texto, em que muitas vezes se apoia em Raymond Durgnat – cujo livro sobre Luís Buñuel eu tenho, mas não de Vidor -,. Pinkerton disseca não apenas a dimensão social e o erotismo do grande diretor, mas também outros aspectos decisivos de sua vida e obra que eu desconhecia. King Vidor nasceu em Galveston, no Texas. Bem nascido, um cavalheiro sulista, adepto da Ciência Cristã e da metaphysical mind de Mary Baker Eddy. Pinkerton esclareceu para mim a proximidade entre sexo e experiência religiosa que percorre a obra vidoriana e faz de suas heroínas (Stella Dallas, Pearl Chavez em Duelo ao Sol, Ruby e Natasha em Guerra e Paz) mulheres inesquecíveis. Depois que se aposentou em Hollywood, Vidor tornou-se itinerante. Viajou com frequência à Europa, fez amizades em Roma e Paris. Realizou experimentos em 16 mm, curtas como Truth and Illusionm – An Introduction in Metyaphysics. Em 1928, ele já era uma referência como cineasta autoral e com consciência social e política em Hollywood, graças a The Big Parade e The Crowd. Por mais que seu olhar privilegie o individuo, Vidor filmou a massa de operários, soldados, trabalhadores do campo como só os grandes russos fizeram. Pinkerton conta como Sergei M. Eisenstein, de passagem por Hollywood, mostrou A Linha Geral para Vidor e faz uma afirmação que, para mim, bateu como um raio – justamente sobre Our Daily Bread (que o diretor só concluiu colocando dinheiro do seu bolso; à frente da produção da Metro, Irving Thalberg interrompeu o projeto). O casal urbano que, reduzido à miséria pela depressão, usa um pedaço de terra para construir a fazenda coletiva. O esforço comunitário para irrigar a colheita ameaçada, e dela sairá o pão nosso de cada dia. Pinkerton cita a cena como o que de mais próximo do espírito de Dovjenko o cinema norte-americano produziu. F…-se os admiradores de Potemkin e Outubro. O ‘meu’ clássico da idade de ouro do cinema soviético sempre foi, e será, Terra/Zemlya, de 1930. Por mais que eu tenha amado rever Fúria do Desejo, talvez devesse ter visto O Pão Nosso, que continuo sem conhecer, exceto pela fama.

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